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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

NINJAS O horror psicológico de Dennison Ramalho [CURTA-METRAGEM]



Raramente o horror é visto como gênero maior da sétima arte. Esse mérito é dado apenas gêneros considerados mais “refinados” pela crítica especializada. Os críticos ignoram o senso estético do horror e seu estilo inverossímil de narrar à trama. Narrativa com base na degradação humana, demonstrando que o homem animal é meramente fruto do meio em que vive. Eles apóiam seus argumentos em velhos clichês do horror do cinema americano que se reproduz anos após ano e no baixo-orçamento dos filmes nacionais independentes. Na verdade o horror em sua contextualização social e narrativa sobre os limiares obscuros da mente humana nunca foi malstream. O que vendem por aí é o “terror pipocão do susto com gritinho e clichê com faca” é um pacotão americano para entreter adolescentes, facilmente impressionais e que não querem deixar de rezar antes de dormir. O horror moderno não faz apologia a criatura dantesca ou as aparições religiosas de cunho sobrenatural. Esse gênero pouco visto, porém não oculto, narra sobre o limiar da mente humana e a loucura que nos espreita na soleira da porta. “Ninja” é um belo exemplo do horror moderno em questão.

O título do curta-metragem dirigido por Dennison Ramalho nos faz pensar de imediato nos samurais e suas espadas mortais. De fato há morte em seu contexto, porém a obra em questão não tem nada haver com as artes marciais. Na verdade “Ninja” é nome de um grupo de extermínio formato por policiais paulistas que ganharam esse título por seus capuzes na cara no momento da execução. E se você pensou em uma versão curta do Capitão nascimento dizendo “senta o dedo nessa porra”, estão muito enganados. “Ninja” não é a fulga do homem bicho de seus demônios internos como fazia o Capitão Nascimento. Ninja é um acordo com o caos e seus demônios internos. Se a convivência com tais demônios não é passe, torna-os aliados da loucura em que vive.


O curta é inspirado no conto “Um bom Policial” de Marco de Castro [leia o conto – AQUI], não o stand-up comedy sem-graça, mas o policial, vulgo “Marcão” como é conhecido. Marcão vivenciou de perto a realidade da PM Paulista e muito de seus contos são baseados nesses fatos. O curta-metragem narra à história de Jailton, interpretado por Flávio Bauraqui. Jailton é o típico policial brasileiro que dança com a morte para trazer comida à mesa. Porém em uma de suas missões ele acaba executa acidentalmente um garoto. Depois deste fato o policial não consegue viver em paz com a sua consciência. É nesse ponto que seus demônios internos tomam posse de sua sanidade, trazendo sua vítima em aparições dignas do “Estranho Mundo de Mojica Marins”.


Jailton apela para religião, mais precisamente, a exploração evangélica. Os cultos que deveriam ter um efeito catalisador para suas visões infernais se tornam o principal alimento de seus demônios internos, transformando suas alucinações em uma visão surrealista e épica. Uma das cenas mais impactantes e dignas da qualidade da obra é a visão surrealista de Jailton diante de um cristo em decomposição que de suas entranhas lhe oferece uma arma como sinal de redenção. Ao contrário de outros filmes, “Ninja” não traz a solução dos problemas, elevando o personagem a uma iluminação individual. Muito pelo contrário, somente quando Jailton se torna membro do grupo de extermínio é que sua mente aceita as condições do caos.


CURIOSIDADES


 O ator Flávio Bauraqui se tornou popular em algumas novelas e seriados da Globo mas foi através das telas do cinema que seu talento se revelou  singular. Seus filmes mais memoráveis são Madame Satã, Zuzu Angel e Quincas Berro D’Água. Devido ao seu desempenho em Ninjas ele conquistou o prêmio o Kikito de Melhor Ator no Festival de Cinema de Gramado.

Para quem reclama das produções nacionais por terem um baixo-orçamento e efeitos de qualidade cômica, “Ninja” é um chute no estômago. O curta-metragem é o retorno as telas do diretor Dennison Ramalho, pai do profano curta “Amor só de mãe (2002)”. Ramalho  também foi roteirista e assistente de direção do mestre Jose Mogica Marins em seu retorno épico as telas com o longa “Encarnação do Demônio (2008)”. “Ninja” conta com grande elenco e cenas de tensão psicológicas totalmente impactantes. Os extraordinários efeitos visuais e maquiagem ficam aos cuidados do talentoso Kapel Furman que já deixou sua marca em obras como “Encarnação do Demônio (2008)”, “O Cheiro do Ralo (2006)”, “Os Famosos e os Duendes da Morte (2009)”, “Bellini e a Esfinge (2001)” dentre outros. 

Apertem o play e boa viagem!

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

A cara-metade de Harvey (2001) Dir. Peter McDonald



Um curta para quem está a procura da cara-metade
[Curta-metragem]

O que seria a tal cara-metade? Realmente fica difícil fazer qualquer reflexão sobre essa expressão tão surreal diante dos princípios que regem a sociedade contemporânea. Atualmente vivemos por conceitos completamente contraditórios diante da filosofia do “verdadeiro amor” e “virtudes humanas”. Infelizmente a maioria das relações humanas é pautada com os mesmos princípios dos tratados mercantilistas: custo-benefício. Independente da natureza de seus vínculos, amizade ou paixão, sempre fazemos uma leitura quantitativa do outro. Avaliamos as virtudes pautas e perspectivas que visam as conquistas financeiras, títulos e poses. Algo totalmente contraditório a retórica que proclamamos em músicas, filmes e poemas sobre a virtude de tais sentimentos.

Pesando na outro lado da balança surgem  as chamadas exigências do “politicamente correto” que ditam regras de felicidade: seja magro, não beba, não fume, não coma carne, pratique exercícios constantemente, seja jovem, sorria sempre. Aguçando ainda mais a angústia e a sensação de solidão de uma sociedade cada vez mais distante do contato humano. E cada vez mais nos tornamos moldes de parâmetro estético, moral e existencial. Assim como todas as coisas que consumimos. Anulando completamente a singularidade de nossas escolhas.

Harvey, personagem fictício do curta-metragem Australiano, dirigido por Peter McDonald, não está distante desse conceito. O curta narra à história de um homem obcecado pela sua "outra metade", incompleto e infeliz, que vê na vizinha do lado a chance de se ver por inteiro. Mas nem tudo aquilo que acreditamos nos perfazer necessariamente é a aquilo nos falta. A ausência pode ser de si mesmo, de uma auto-estima sobre os conceitos, valores e características que nos compõem. A ausência de um olhar mais apurado de quem somos, o que faremos com o que somos e para onde desejamos ir.

Alguns podem não gostar da forma como o diretor compõem as suas reflexões, transformando a película em uma seqüências de cenas surreais, grotesca, e para os mais sensíveis a tais expressões, desconfortante. Mas é através incomum e estranho que Peter McDonald nos revela o lado mais vil de nossa solidão, de nossa fome voraz pelo outro, de nosso egoísmo e egocentrismo diante dos sentimentos. Afinal cabe a reflexão individual de cada um. Essa é apenas a minha visão. Bom curta a todos!

Harvey (2001)
Direção: Peter McDonald
Origem: Austrália

quarta-feira, 26 de junho de 2013

TROUBLE EVERY DAY (2001) Dir. Claire Denis




 Apesar do título em inglês o filme é uma produção ousada da diretora francesa Claire Denis. Seus filmes sempre caminham pelas sutis veredas dos instintos e libidos humanos, sobre a carne e seus impulsos mais irracionais, seja a criminalidade serial como no filme “J'ai pas sommeil (Noites Sem Dormir, 1994)” ou recalcamento homossexual como em "Beau travail (Bom Trabalho, 1999)". É típico do estilo de narrativa estética da diretora a obra ser extremamente tátil, deixando a câmera farejar, lamber, tocar os atores. Em “Trouble Every Day” não é diferente. O filme não prática excessos em falas e diálogos explicativos, as cenas acontecem quase desconexas entre si, entre personagens diferentes e cenários distintos, mas por fim, tudo se encaixa com um propósito em comum. De certa forma isso cativa atenção, somos obrigados a construir a natureza dos fatos enquanto a história se transforma diante de nossos olhos. 

Assim como os demais filmes do expoente francês aqui apresentado, principalmente a nova safra de diretores do cenário “cinema francês extremo”, o famoso cinema de bordas, ou como chamo, underground. O que vemos são leituras inverossímeis do gênero e contextos que poderiam cair no clichê. Porém esse é o diferencial do cinema francês, seja o tradicional ou o cinema de underground que tanto paparico. Em filmes como "Martyrs" [veja AQUI] e "Saint Ange (A Profecia dos Anjo)" de Pascal Laugier, "Haute tension" de Alexandre Aja, "Frontière(s)" de Xavier Gens ou "À l'intérieur" dos diretores Alexandre Bustillo/Julien Maury [veja AQUI]. Ou até mesmo nos dramas recheados de mistério como "Holy Motors" de Leos Carax, "La Moustache" de Emmanuel Carrère e "Maléfique" do diretor Eric Valette [veja AQUI]. Todos se diferenciam pela construção de suas histórias, nada explicativas, porém muito criativas, cabíveis a sagacidade de interpretação do telespectador, algumas vezes ocasionando a decepção para aqueles que apreciam enredos mastigados. No entanto sempre será uma surpresa para aqueles que degustam uma trama inverossímil, construída com sagacidade e inteligência. Claire Denis apresenta em sua obra justamente essa construção desordenada com finalidade de uma conclusão mais impactante, com diálogos minimalistas e planos altamente narrativos.


Retornando ao que realmente importa. Sobre o que se trata o filme? Eis a razão de utilizar a palavra “ousada” para essa produção. A atmosfera de Trouble Every Day é justamente um tema muito delicado, o canibalismo amoroso literal estimulado por uma libido intenso causado por uma patologia especialmente rara. Por isso digo “ousada”, provavelmente nas mãos de um diretor de menor calibre o filme iria escorrer pelo ralo do gore sem sentido e no trash ao estilo "The Texas Chain Saw Massacre (O Massacre da Serra Elétrica 1974 -2003)". 

No entanto Claire compôs com toda sutileza o que era cabível a uma excitação e conotação erótica aos estímulos exóticos, com certo deleite de “Voyeurismo hardcore” das cenas de ápice sexuais sempre movidas aos desejos extremo da carne. Sem deixar cair na vulgaridade da pornografia barata ou “porn-gore” descomedido. Equilibrando o sentido do extremo, esquadrinhando a progressão da história e o contexto, dos mistérios que permeia os personagens principais e suas enfermidades. O erótico voraz e a violência narrativa são excitantes e impactantes ao mesmo tempo, mas não deixam de sobrepujar o valor da história.


Em alguns momentos sentimos uma dose de Cronenberg, sobretudo se compararmos com uma obra-prima do porte de "Crash - Estranhos Prazeres (1996)". Para refrescar a memória  o filme narra à história do cineasta, James Ballard, que se envolve em um acidente de carro se tornado um “deficiente” físico. Após conhecer outras pessoas que passaram pela mesma situação, descobre que um pequeno grupo, motivado por um artista, fotógrafo, motivado pela excitação de registrar cenários de acidente automobilísticos, além de transforma cicatrizes em artes. Ballard se envolve com as pessoas deste grupo, todas motivadas por um transtorno sexual em comum, prática sexual em automóveis em alta-velocidade e cenários catastróficos.



Em “Trouble Every Day (Desejo e Obsessão)” não é diferente. O transtorno sexual é visto como uma doença, como um vício, mais ainda, a narrativa fragmentária de da diretora sugere que todo esse processo se deu por conta de um erro científico. É justamente sobre o apetite incontrolável que a fotografia se faz presente como uma narrativa indispensável. A primeira delas a viagem de lua-de-mel de Shane, interpretado por Vincent Gallo, um homem atormentado e com apetite sexual incontrolável. Ao mesmo tempo, ele está procurando por um médico, Léo (Alex Descais) que segundo colegas teria caído em desgraça no meio científico por querer estudar os fatores celebrais que flagelam a esposa. A estonteante e exótica Coré, na fantástica atuação de Béatrice Dale. Coré é atípica e completamente instintiva e animalesca em seu quadro crônico. Insaciável Coré sempre está à procura de novas relações todas levam os seus parceiros até a morte, canibalizando-os literalmente. 



Se por um lado Coré se deixar dominar por seus instintos mais selvagens, liberando feromônios, sendo totalmente atrativa e voraz as suas vítimas sexuais. Por outro lado Shane vive constantemente tolhido as relações sexuais com sua esposa, muitas vezes demonstrando uma melancolia oculta por um desejo intenso que vai além do mero contato humano. Entre as expressões de Share e Coré quase não há sensualidade, o desejo é tratado de forma primitiva, necessidade básica. A diretora faz de tudo para ora esconder essa intensidade e em alguns momentos demonstrando de maneira voraz, porém sempre deixando a luz o tema como  personagem principal, as sensações acima dos personagens. O filme prossegue com Shane em busca por uma cura, lutando com os seus instintos mais perversos. 



[Spoiler] Em certo momento o personagem não consegue sentir prazer com a esposa, masturbando vorazmente. Até que em determinado momento se entrega aos seus instintos animalescos. Com certeza essa é uma das cenas mais eróticas e, com a progressão dos fatos, mais chocantes! Em um ato de infidelidade com a copeira do hotel que se entrega completamente aos desejos do hospede, Shane vai de dominador para devorador. As mulheres terão seus pelos pubianos eriçados nesse momento. Literalmente é devorada a vagina da jovem que vaga entre excitação e horror até realmente ter consciência da mutilação e o fim. Porém tudo é feito com muito polimento, sem excessos ou exageros. [Spoiler]


Concluo o artigo deixando meus aplausos vão para Béatrice Dale. Quem acompanha o Imemorável provavelmente viu a postagem do filme “À l'intérieur (A Invasora, 2007)" dos diretores Alexandre Bustillo e Julien Maury. [veja AQUI]. No artigo (recomendo que leiam!), além detalhar a natureza do filme, faço uma breve biografia da natureza exótica da atriz. Sua atuação em “À l'intérieur” já havia me surpreendido completamente. Já na obra da diretora Claire Denis a atriz está praticamente irreconhecível, figurando totalmente a natureza exótica e animalesca da personagem Core. Mostrando novamente a habilidade em vestir personagens extremamente exóticos. Que alias, são apenas lufas de inspiração de sua vida pessoal. Recomendo que leiam o artigo, baixem o filme e tirem suas próprias conclusões.

FICHA TÉCNICA


Direção: Claire Danis
Título Original: Trouble Every Day
Título de Divulgação no Brasil: Desejo e Obsessão
Gênero: Drama, Suspense, Terror
Origem:França
Ano: 2001
Atores principais:Vincent Gallo, Tricia Vessey, Béatrice Dalle
Minha nota: 8,5
Trailer: Assista

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Torrent + Legenda em Português (TED.rar)

AVISO: Se você curtiu ter achado o filme que tanto procura e ainda curtiu ter uma análise bacana sobre o mesmo, lembre-se. Quando baixar o torrent, não o delete de imediato, deixe compartilhando para que outros tenha a mesma satisfação que você. E comente o artigo, seja aqui ou na página no facebook [Link]. A generosidade agradece. 

sábado, 18 de agosto de 2012

À L'INTÉRIEUR (2007) Dir. Alexandre Bustillo & Julien Maury






“A violação dos sentidos e o sentido da violação nunca esteve tão evidente.”
(Domenium)


“A Invasora” título divulgação para o original em francês “À l'intérieur” é o primeiro filme da dupla de cineastas, Alexandre Bustillo e Julien Maury. Os diretores foram influenciados pelos mestres da antiga linhagem como Dario Argento, Roman Polanski , Clive Barker e John Carpenter . Inclusive a dupla foi convidada para fazer um ‘reeboot’ do Cult 80’s do horror - “Hellraiser (1987)” de Clive Barker. Mas por divergências artísticas desistiram do projeto. O debut de fato ao cenário de filmes franceses extremos surgiu com a obra aqui em questão.  O enredo da película traz uma densa carga psicológica e imagens completamente angustiantes, indo da aflição visual ao gore em poucos segundos.  Sem contar a desenvoltura dos fatos, típico do gênero. Soma ao conteúdo uma temática incomum. A história de uma mulher grávida e seus questionamentos sobre o que irá existir, o universo externo que lhe invade a intimidade física, sentimental e psicológica. 
Alexandre Bustillo e Julien Maury
No entanto “À l'intérieur (A Invasora)” traz duas perspectivas dentro de um mesmo prisma. A primeira, uma visão mais evidente e crua,  expressa no gore e cenas de horror claustrofóbico. A segunda, contida no sub-roteiro que se desenvolve na subjetividade dos fatos, símbolos, arquétipos do universo feminino/masculino e seus personagens. É justamente essa diferença que suscitou o meu interesse em criar esse artigo mais detalhado. Espero que gostem.


A INVASORA


O filme se inicia com uma imagem peculiar, a figura de um bebê dentro do ventre e suas reações ao mundo externo. Alguns ruídos e sons nos dão indícios do que poderia estar ocorrendo fora de sua “bolha de segurança”. Após alguns segundos, novas imagens nos transportam para uma rodovia, somente os sons da chuva compõem a trilha sonora para as cenas que se desenham diante dos olhos do telespectador. Entre os destroços e o silêncio da incompreensão se encontra a jovem Sarah (Alysson Paradis) e ao lado o corpo do seu falecido esposo, Matthieu (Jean-Baptiste Tabourin).


Após esses fatos o filme prossegue em um futuro próximo, nove meses depois. Sarah se encontra em seus últimos meses de gestação, solitária em pleno natal, tendo como companhia as lembranças de seu esposo, a solitude de sua condição e sua máquina fotográfica. A fotografia se expressa através da personagem como uma espécie de “narrativa calada sobre as percepções mundanas e os sentimentos degustados através de uma perspectiva singular”. Algo que partilho semelhança, apesar da contextualização contrária ao meu viver, pois também compactuo da mesma atividade. Não sei se essa observação se enquadra a todos os fotógrafos, mas para mim a imagem é uma literatura visual, momento em que o silêncio se faz presente e apenas a imagem e meu olhar estão conectados. A fotografia é uma das formas em que percebo o próximo, observo o meio a minha volta, expresso meus sentimentos diante do objeto fotografado.


Mas voltando ao filme. As vésperas do nascimento do bebê sua única companhia física são as visitas esporádica de uma mãe completamente dominadora e um chefe totalmente egocêntrico, displicente com o momento e as sensações que visivelmente transformam Sarah. Ajudá-la, para ele, é apenas um mérito para que a profissional em repouso volte o mais rápido possível a sua função no tablóide sensacionalista, o qual é dono.

Neste momento a solidão é inevitável, o filme explicita isso, não somente pela ausência daquele que não está presente, mas principalmente devido à incompreensão de suas transformações em um universo atípico ao homem. Os diretores conseguiriam muito bem expressar a idéia da solidão como “um universo que pertence só a mim e a experiência que me entorpece”, através silêncio entre os móveis, a fina presença da luz e amplitude dos espaços. Tecendo finamente aos nossos olhos a visão angustiando do estar só, de não se reconhecer em nenhum outro espaço e ser indiferente ao mundo externo que caminha indiferentes a um microcosmo que se constroe.  


É justamente nessa solitude, neste retraimento da alma que Sarah se encontra em pleno natal, cultuando aquele que irá nascer. O silêncio só é quebrado quando uma estranha mulher bate à sua porta. Sarah, assustada, não atende aos chamados da estranha invasora. No entanto a mulher se recusa a ir embora. E para piorar, essa estranha figura demonstra ser muito íntima das condições que Sarah se encontra, sabendo seu nome e detalhes do fatídicos acidente automobilístico. Assustada, Sarah chama a policia. Que nada encontra de suspeito. Os policiais vão embora após tranqüiliza-la diante da ausência de fatos. Porém a estranha mulher já havia invadido seu universo íntimo, adentrado nas dependências de sua casa. É partir deste ponto que muitas coisas se transformam no filme, tomando uma linha completamente diferente.

Béatrice Dalle
O que os diretores Alexandre Bustillo e Julien Maury nos trazem a seguir são momentos interruptos de aflições psicológicas, loucura, violência e gore. A estranha mulher definida no roteiro como “La femme” é interpretada pela fantástica atriz Béatrice Dalle. Os diretores foram de uma sagacidade descomunal ao convidar Béatrice para esse papel, pois a atriz notavelmente já é estranha e suas expressões de sadismo e loucura se manifestam quase naturalmente.

Fatos interessantes sobre a atriz. Aos catorze anos a jovem Béatrice se torna ícone do movimento punk, sendo notada por um fotógrafo que a convence a posar para a revista "Photo". As fotografias publicadas despertam o interesse do agente artístico Dominique Besnehard. Este propõem a jovem , em 1985, a contracenar com o ator Jean-Hugues Anglade na película “37°2 le matin” de Jean-Jacques Beineix. Devido à impetuosa atuação Béatrice é lançada ao universo da sétima arte. E devido a sua beleza exótica nos anos 80 a sua imagem esteve sempre vinculada ao estilo "sex-appeal" de se viver. No entanto com o abuso de drogas e contravenção as leis sua fama mudou, tornaram-a uma espécie Amy Winehouse parisiense. Vamos brincar com os fatos, talvez essa seja a razão de ter se encaixado tão perfeitamente em uma personagem pirada e excêntrica. Outro fato curioso sobre Béatrice Dalle é que seu sobrenome tem origem matrimonial com o pintor Jean-François Dalle, do qual, se divorciou três anos depois e que curiosamente cometeu suicídio.

Esquerda para Direita: Béatrice Dalle, François Maury, Julien Maury, Alysson Paradis and Alexandre Bustillo.

Até que o filme chegue ao grande clímax de gore e do próprio desfecho da história, veremos uma luta de vida e morte entre Sarah e a estranha “La femme” que a todo custo tenta retirar o bebê das entranhas da protagonista. A primeira vista muitos irão pensar que os diretores tentaram ganhar o público com a tal violência gratuita como ocorre em filmes como “O massacre da serra-elétrica”. 

Mas se analisarmos o sub-enredo que se desenvolve paralelo a obra, seus signos e significados, perceberemos que a violência está contextualizada em fatores da natureza feminina diante da preservação da espécie. Algo que para alguns homens tornam o arquétipo da mulher uma “leitura estranha”. De fato a natureza inconsciente do homem perante a espécie é de perpetuação. E claro que atualmente muitos homens "vivem do inconsciente", da manifestação única do seu falo, do seu ego, reflexos da sociedade de consumo, mas isso não cabe a narrativa do filme. É uma opinião filosófica que caminhará por outras arestas. Vamos ao sub-enredo aqui proposto.


O LADO B DA HISTÓRIA
 Algo que talvez tenha passado imperceptível aos olhos


Talvez o que irei dizer seja desconexo caso não tenha visto o filme. E o que será dito não irá interferir nas surpresas que o filme possa oferecer. Pelo contrário, acredito que ajudará ainda mais a degustar a progressão dos fatos. Se observarmos como demorada atenção, iremos perceber que o filme faz uma narrativa completa sobre o universo feminino e que a imagem masculina é completamente secundária e imperfeita dentro do enredo. O título da película “À L' intérieur” pode ser traduzido como “dentro”. E diante disso já podemos fazer interpretações como: o filme faz a narrativa de quem está no interior e de quem está no exterior; ou sobre a possível invasão da “casa”, seja no ambiente físico, moral ou íntimo. 

No entanto a narrativa principal, oculta no sub-enredo, não é de quem está dentro ou fora. O discurso pertence ao universo feminino. O discurso é sobre o instinto materno, as sensações emocionais e químicas da progenitora da vida, sobre a incoerência e incompreensão da perspectiva racional masculina, diante da perspectiva racional feminina. 


Uma das primeiras figuras masculinas descaracterizada no filme e que nos mostra a luz para essa análise é o marido de Sarah. Após a sua morte nada mais é trazido a narrativa para demonstrar a sua importância no enredo. A imagem masculina durante todo filme é fugaz e somente se fará presente para frisar ao telespectador a incapacidade masculina dentro da racionalidade de se entender o universo feminino. 

Não posso deixar de comentar que a morte do marido é totalmente simbólica, dizendo através de sutilezas que Sarah foi libertada do mundo simbólico, respirando e vivenciando com plenitude a simbiose materna imaginária. Um universo impar as concepções masculinas. 

E portanto, justamente devido à incapacidade de tal percepção, fica expressa em uma cena singular a figura de um médico, durante o exame de quatro meses de gestação, após o acidente, o sujeito em questão (figura masculina) não consegue invocar com palavras nenhuma manifestação amistosa a Sarah. É uma demonstração clara de sua limitação diante das transformações, a qual, consegue compreender  aquilo que se expressa no âmbito da carne.

O filme traz a solidão. A vontaque que a Sarah têm de ficar sozinha no natal demonstra que está completa. Ou seja, o desejo, que sempre significa na mulher o “não ter algo”, está completo, ela já tem o que a completa, o bebê. O equilíbrio perfeito, o ciclo que se fecha.


Já a “La femme”, figura que persegue a protagonista, compartilha de seu registro feminino imaginário, pois compadece dos mesmos sentimentos e da mesma situação, porém de maneira oposta. (Não irei revelar o quê senão entregarei o ‘x’ da questão) Por isso a presença da máquina fotográfica é tão evidente em algumas cenas, dentro do contexto, a fotografia exerce o papel narrativo ao dizer que ambas são detentoras da imagem que ninguém pode enxergar.

Todos os homens que adentram na casa são sugados por não “perceberem” o que está acontecendo. A lógica masculina impossibilitada de se comunicar com a lógica feminina. Apenas Sarah e “La femme” tem consciência do processo, do culto a vida que estão exercendo. E todos os homens que porventura decidem interromper “o ritual lilithico” que se constroem na troca de forças entre ambas, acabam por serem mutilados. Cada “morte masculina” é um sacrifício realizado em prol da grande deusa. E as mulheres/mães acabam ficando mais fortes e invencíveis diante do sangue derramado. 


Nesta “dança frenética” o foco central se encontra na figura mítica do bebê. Ele simboliza uma nova ordem a ser restaurada. Não é mencionado no filme, mas está condito nas entrelinhas à sexualidade do bebê, é um menino, sem nome, e quando o tiver entrará no universo simbólico masculino. O seu nascimento é uma espécie de “equilíbrio restaurado”, algo que não acontecerá no filme.

A maioria dos símbolos são bem evidentes como o fato do bebê nascer no natal, isso faz uma analogia ao nascimento de Jesus Cristo. Os três policias que surgem representam os três reis magos da mitologia cristã. Assim como a ausência do pai verdadeiro (e suas lembranças constante) representam a presença invisível do criador. Ou podemos interpretar de forma oposta, pois se prestarmos muita atenção, veremos que no início do filme o número que demarca a residência de Sarah é 666. Portanto, podemos interpretar como não sendo o filho do pai que nascerá ali, mas sim o primogênito de Lilith, a rainha dos demônios da mitologia hebraica.   


Evitei muitas descrições das cenas para não fazer nenhum spoiler do filme. Mas a pergunta crucial que a obra nos traz é: “Por que Sarah está sendo atacada pela estranha invasora?”. Esse é ponto de equilíbrio que elucidará os momentos finais, cruciais. 


A obra em si sintetiza a diferença, não moral, mas natural entre “masculino e feminino”. Apesar de vivermos em uma sociedade dita como civilizada, ainda assim, somos regidos por nossa natureza, ou seja, a força matriz que existe nos apostos, razão primordial da preservação da espécie e gênero: homo sapiens. Em certo nível, inconsciente ou não, a natureza feminina será incompreensível a natureza masculina, vice e versa. Nós, seres humanos, enquanto espécie e não individuo, inconscientemente sempre agiremos em virtude da espécie. Já o que eleva nossos sentimentos além do coito, pessoalmente e filosoficamente falando, é a única razão pela qual nos difere dos outros animais: a consciência do viver e morrer. 


CONCLUSÕES FILOSÓFICAS
ou tolices de minha parte, fica à escolha.


A percepção perante a morte e a sensibilidade do viver é a polidez de nossos sentidos. Essa “polidez” é necessária para que possamos encontrar no próximo, além do coito, além da preservação da espécie, o equilíbrio perfeito. Ao contrário do instinto natural da preservação que define como perfeito, fêmea ou o macho que esteja adequado a fecundação de um novo individuo.

E justamente a tal “polidez” é que nos difere dos outros animais, oferecendo-nos a vantagem de não vivermos apenas pelo instinto. Polidez que podemos chamar de consciência do que somos. Somos o pedaço de carne finita que enxerga uma alma presa ao infinito. Somos a triste consciência que percebe a tragédia de viver. E ao percebermos tais fatos, nós, seres humanos, mesmo que ainda sejamos naturalmente motivados pela força natural da preservação da espécie, ainda sim, desejamos viver com mais plenitude tudo aquilo que compreendemos como vida.  Por essa razão as artes existem para expressar as angustias que fazem vibrar a nossa alma e o pulsar de nosso coração. Por isso, acredito, que a verdadeira materialização do amor é a consciência daquilo que se sente, são todos os contextos dentro das relações humanas em equilíbrio (ou a passos para isso), pois qualquer outro sentimento, nascido apenas da singularidade do impulso, nada mais é que a natureza manifestando o seu desejo inconsciente de preservar a espécie.  Que não é nada mal, se soubermos por que nutrimos sentimentos pelo próximo. Já as ações de Sarah e a sua agressora, nada mais, nada menos, representam a espécie agindo dentro do gênero humano, no seio progenitor da vida singular, no impasse da natureza feminina.

E para concluir. Esse filme veio em um momento crucial. Já alguns meses ando estudando para executar um projeto fotográfico intitulado “A manifestação do amor na sociedade contemporânea”. Não entrarei em muitos detalhes, mas quando pronto, aqui demostrarei, pois também já terei aonde expor por ajuda e interesses de alguns amigos do meio artístico. Mas para sintetizar, a base da idéia é demonstrar que algumas relações humanas dentro da sociedade atual – sociedade de consumo - são baseadas no custo/beneficio.

Portanto, comecei meus estudos pelos desejos, o sentido de preservação da espécie para confrontar com a minha opinião, como expressa acima. Ao mesmo tempo em que assisti “À l'intérieur (A Invasora)” havia acabado de concluir em algumas semanas o livro “Metafísica do amor Metafísica da morte” de Schopenhauer e já iniciava “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo” do Jung. Por isso peço desculpas pela extensão do artigo. E claro, uma nova ou oposta visão, sempre será bem-vinda, pois todo ato é um aprendizado. Este é o meu. No entanto, penso comigo, se eu não tivesse conectado com esse desejo de conhecimento, jamais teria essa visão perante a película.

Bom. Espero que gostem do filme, espero que comentem. É sempre um prazer ver outros pontos de vista. Bom filme! 

FICHA TÉCNICA

Direção:  Alexandre Bustillo e Julien Maury
Gênero: Drama/Horror/ Gore
Odioma: Francês
Origem: França
Ano: 2007
Atores: Béatrice Dalle, Alysson Paradis, Nathalie Roussel, François-Régis Marchasson, Jean-Baptiste Tabourin
Nota:85/100


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sábado, 13 de agosto de 2011

Genesis (1998) Dir. Nacho Cerdà


GENESIS
Direção de Nacho Cerdá
Nacho Cerdá é um diretor espanhol conhecido por seus curtas de natureza polêmica. Ele não faz invocação ao banal ou a violência gratuita, tão pouco é reconhecido nos holofotes de hollywood. No entanto, seus trabalhos são únicos, premiados em diversos circuitos internacionais de cinema fantástico. Justamente devido ao modo como narra as suas estórias. Sempre acentuadas por uma perspectiva crua e poética sobre as variações da natureza humana em seu estado mais dantesco e solitário.

NACHO CERDÁ
 Isso fica bem explicito no seu afamado curta “Aftermath” produzido em 1994. Obra máxima que narra o final da carne humana diante de uma mente repleta de desejos pérfidos, lascivos e doentios. Este curta, assim como “Genesis” e “The Awakening” (seu primeiro trabalho) fazem parte do DVD lançado em 2007, intitulado “La Trilogia de La Muerte”.

Meus comentários sobre esse trabalho ficaram para próxima postagem.

O ponto crucial das obras de Nacho Cerdá é despertar a mentalidade humana de sua banalidade usual. Talvez por essa razão, assim como seus demais curtas, “Aftermath” é uma obra polêmica. Justamente por aflorar os nossos sentimentos de repulsa, os quais já haviam domesticado há muito tempo, utilizando todo o subterfúgio dos telejornais, degustando a sua violência trivial entre o almoço e o jantar. De certa forma, nós, a sociedade civilizada, estamos habituados com a violência, ela não nos parece tão vil quando vista sob a perspectiva de nossos lares, nossa íntima segurança. No mesmo decline caminha nossos sentimentos. Estamos cada vez mais frígidos a expressá-los e cada vez mais impassíveis de percebê-lo no outro. Somos auto-suficientes em nosso egoísmo e rígidos em nossa hipocrisia moral. Cerdá causa asco em alguns e reflexão em outros, justamente devido à sinceridade explicita e amoral. Surrealismo poético, fotografia expressiva, ausência de diálogos, suspense e solidão. Essas são algumas pitadas que encontrarás no curta de Nacho Cerdá, assim como no poético GENESIS.


GENESIS - A HISTÓRIA


Genesis narra a história de um artista plástico que perde a sua esposa em um terrível acidente de carro. Deste então carrega consigo essa amarga solidão em seu peito, remoendo essa fria ausência do querer. Em um ímpeto de vazio e desapego a vida, decide esculpir a sua Vênus de Milo. Seus dias são possuídos por um trabalho exaustivo e quase interminável. Sua dedicação consiste em esculpir as feições métricas de sua falecida e amada esposa.


 Eis que surge a narrativa fotográfica do curta, delineando cada ponto, cada curva e silhueta. Demonstrando a sensibilidade da alma do artista que, por um segundo, domina a essência divina, transformando a matéria bruta em beleza visual. Dia após dia a estátua se torna mais polida, mais próxima a idealização do artista. Por fim o trabalho chega aos seus momentos finais. Pequenos retoques são um mero afago aos sentimentos ou apenas uma recordação amarga daquilo que não se pode ter.


Prestes a concluir a sua obra, o artista observa fios de sangue delineando os traços femininos da estátua. São pequenas fissuras que se formaram no corpo de argila e que com o passar das horas parecem mais vivos. Com o passar do tempo as fissuras vão aumentando e revelando uma camada avermelhada de carne e músculos. Em contraponto o artista vai seguindo o processo inverso. Observa com o transcorrer do tempo que o seu corpo é tomado por substâncias escuras, rígidas.


Termino aqui o que é necessário saber. O curta não tem nenhuma linha de diálogo, tudo se revela através interpretações e simbolismo. O diretor soube muito bem narrar através de closes, pequenos planos e oscilação entre sombra e luz todo o aspecto da história. Nenhuma sinopse expressará com exatidão aquilo que os sentidos pode captar com a contemplação. Apenas recomendo que assista mais de uma vez para observar os pequenos detalhes que passam despercebidos na primeira observação. Não é atoa que Genesis foi tão premiado...

Título Original: Genesis
Direção: Nacho Cerdá
Atores: Pep Tosar, Trae Houlihan
Ano: 1998
Origem: Espanha
Duração: 30 min.
Idioma: Espanhol
Formato: AVI
Tamanho: 371 MB
Servidor: Megaupload

OBS: Download indisponível no momento. Assista o curta através do youtube.

Parte Um - Parte Dois - Parte Três

Conheça o blog do diretor Nacho Cerdá  - www.nachocerda.blogspot.com


sábado, 16 de abril de 2011

The Fly (1958) Dir. Kurt Neumann and (1986) Dir. David Cronenberg


THE FLY
(A Mosca)


Dois diretores, duas visões em épocas diferentes de um clássico do terror


Uma das coisas que mais fascina o ser humano é sua própria capacidade de superar suas limitações biológicas através da tecnologia, coisa que – até onde se sabe – nenhum outro animal consegue. Muito antes dos avanços científicos e da consciência humana sobre as manifestações moleculares na matéria, as artes, principalmente a literatura, de certa forma, foram capazes de prognosticar o avanço das ciências e com isso os passos da espécie humana rumo à evolução tecnológica. Autores como Julio Verne, H.G. Wells, George Orwell e Aldous Huxley passaram a ser lembrados por jornalistas, físicos, biólogos e outros cientistas em artigos acadêmicos que relatavam suas novas descobertas no campo da não-ficção. Até mesmo as histórias em quadrinhos serviram aos projetistas da Nasa diante de um problema na aerodinâmica dos foguetes. Fato, uma das soluções surgiu após observarem o design arrojado das espaçonaves desenhadas por Alex Raymond para a série Flash Gordon nos anos 30.

Mas ao mesmo tempo em que o avanço científico traz essa espécie de fascínio aos olhos - por outro prisma - não deixa de ser visto como uma violação da natureza, um passo além daquilo o que é moralmente permitido. Eis que entram os filmes de ficção científica e terror para narrar tais fatos. Eles souberam muito bem ao longo dos anos, deliciar-nos, com soturnas narrativas sobre o temor da espécie humana.

Em “The Fly (A Mosca)”, seja o Cult de Kurt Newmann produzido em 1958 ou a refilmagem que se tornou um clássico trash em 1986 nas mãos de David Cronenberg, ambos, são especialmente notórios por relatar as trágicas conseqüências da ciência rumo ao desconhecido.

[Atenção: o artigo a seguir contém spoiler sobre os filmes]


THE FLY – 1958
Por Kurt Neumann



Ao contrário do que algumas pessoas imaginam a idéia para "The Fly (1958)" não foi inspirado em “A Metaformose (1915)”, obra do maior escritor de ficção da literatura alemã do século XX, Franz Kafka (1883 – 1924).  A origem veio de um conto publicado na Revista Playboy pelo escritor e jornalista britânico, Sr. George Langelaan (1908 – 1972) em 1957. Inspirado neste conto o diretor Kurt Neumann produziu o longa. No Brasil o filme foi lançado com um título bem notório - “A Mosca da Cabeça Branca”. O trabalho de Neumann foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, sendo considerado um dos filmes mais assustadores da época, apesar de algumas falhas na direção.


O filme narra os acontecimentos que envolvem a família Delambre. A trama tem inicio quando na calada da noite o vigia da Fabrica Delambre ouve certos ruídos estranhos vindo das instalações internas, propriamente na ala das prensas. Ao chegar ao local, o funcionário presencia um cadáver com o braço e a cabeça esmagada por uma das prensas hidráulicas. Pelas vestes do morto, aparenta ser o cientista Andre Delambre, marido de Helene Delambre. Helena, ao ser vista no local, foge desesperadamente.



Após os fatos, Helene confessa ter matado o marido, expressa tal fato com um ar de satisfação e ao mesmo tempo misericórdia. Porém, seu cunhado, François Delambre, interpretado pelo incomum Vincent Price, não consegue compreender a razão do assassinato, já que o casal era muito apaixonado. O filme demora longos 30 minutos nessa trama de mistério. Aos meus olhos o diretor Kurt Neumann não soube dar ritmo para chegar ao ponto cuminante, ou seja, a fusão do homem e da mosca. A transformação só será exposta quando François convence Helene a narrar todos os pormenores para que não seja presa por assassinato. É a partir deste ponto que o filme começa a ficar interessante.


Helena começa sua narrativa sobre os momentos felizes em família, apesar da constante ausência do seu marido que andava trabalhando constantemente em uma descoberta que iria revolucionar a maneira das pessoas viajarem: um transportador de matéria.  Quando ele julgou que seu trabalho estava pronto, vez a apresentação a Helene, teletransportando um objeto de uma cabine a outra. Porém ao finalizar a experiência Andre percebeu que algo saiu errado, pois a frase impressa na base do objeto saiu inversa. Vários outros testes fracassaram, o cientista chegou a desintegrar um gato até obter sucesso em seu invento.


Por fim, após uma seqüência de resultados positivo, como todo bom cientista, decide testar o experimento em si mesmo. Tudo sairia muito bem se uma mosca não tivesse entrado na cabine junto com ele. O resultado é catastrófico, mosca e homem, tiveram seu DNA partilhado após a fusão de uma cabine a outra. E cada qual se tornou, em partes, uma nova espécie. O cientista tinha a sua parte mosca, neste caso, não a transformação completa, mais sim, o braço e a cabeça do inseto. E a mosca desenvolveu uma perna diferente e uma cabeça branca (Eis a razão do “aportuguesamento” do título do filme!)


O filme não termina no desfecho acima. Após a descoberta do trágico acidente, Helene Delambre, com ajuda do filho, sai à busca da mosca de cabeça branca. Se ambos, mosca e homem, forem colocados novamente na máquina, possivelmente a repetição da experiência pode reconstituir o DNA do cientista. Mas como um bom filme de terror isso não acontece, o cientista aos poucos vai perdendo a essência humana e a mosca, pois bem, a mosca propicia um dos finais mais memoráveis da história do cinema clássico! O tiozão, François (Vincent Price), a encontra próximo ao banco do jardim, presa em uma teia de aranha. Distraído, ele jamais notaria a presença da mosca de cabeça branca, mas um fato incomum ocorreu, chamando a sua atenção. A mosca que estava presa clamava, isso mesmo que você leu, clamava por ajuda com ‘gritinhos’ de socorro. Ao observar a cena dantesca, François, notou que a parte mosca havia se difundido e era visível a parte humana que residia no inseto.


Logo abaixo o link do youtube para você que quer estragar a surpresa (ou não) desse final “unbelivible!”


[Final impagável da mosca em "The Fly (1958)" - aqui]

O filme conta com alguns efeitos especiais precários, principalmente devido à época em que foi produzido. Mas de certa forma, isso torna o filme curiosamente interessante, principalmente devido à impagável concepção de ‘Homem Mosca’ que a obra apresenta. De fato alguns atores deixam a desejar, mas em geral é interessante perceber a sutileza da história e como era futurística a visão sobre a evolução da tecnologia nos anos 50.

Apesar dos efeitos precários de Kurt Neumann, o filme ganhou vários prêmios, inclusive o prêmio “Hugo Award” (veja aqui) que é dado aos melhores romances de ficção cientifica. “The Fly” acabou se tornando uma verdadeira obra cult, infelizmente o diretor Kurt Neumann não chegou a presenciar o seu sucesso, ele se suicidou semanas antes da estréia do filme. Ninguém sabe ao certo a razão, mas acreditam que o diretor já previa um certo fracasso, já que seus filmes anteriores – inclusive a séries de filme Tarzan – não atigiu o reconhecimento que ele desejava como diretor. O filme acabou se tornado um verdadeiro Cult nos anos 60, sendo imortalizado pela clássica frase de sua refilmagem: “Tenha medo, tenha muito medo”, citada por muitas pessoas, sem de fato saber a sua real origem.

Vincent Price

E claro, não posso deixar de mencionar a importante presença do ator Vincent Price, grande expoente do cinema clássico de horror e ficção científica. Price tem em sua honrosa lista, clássicos atemporal, filmes como "Museu de Cera" (1953), "O Corvo" (1963) e "O Abominável Dr. Phibes" (1971). Infelizmente ele nos deixou em 1993. Mas fica o seu legado e sua memorável presença junto aos mestres do horror de todos os tempos como Bela Lugosi (1882 - 1956), Boris Karloff (1887 - 1969), John Carradine (1906 - 1988), Peter Cushing, (1913 - 1994) e o fabuloso ator Christopher Lee (1922). O único vivo e na ativa! Podemos vê-lo em "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça", "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" e recentemente "Star Wars: Episódio II - Ataque dos Clones".


Após a morte de Kurt Neumann e o sucesso do filme, foram produzidas duas continuações: “The Return of the Fly (1959)” e “The Curse of The Fly (1965)”. Porém, não tão significativas quando a obra matriz. Em 2007 foi lançado um Box com a trilogia remasterizada que você pode encontrar a venda em qualquer e-commerce especializado em cinema. No final deste artigo se encontra o filme para apreciação através de download.

THE FLY – 1986
Por David Cronenberg



Chegamos ao grande momento deste artigo! Apesar de ter um admirável respeito pelo clássico de Kurt Neumann, foi à refilmagem do diretor David Cronenberg que fez a diferença. Na época em que o filme foi lançado eu tinha apenas 6 anos e muitas descobertas pela frente. Ainda hoje considero o filme fantástico, mas na época, foi à coisa mais surpreendente que eu já havia visto. Porém, atualmente, conhecendo os trabalhos do diretor, tenho um senso crítico mais apurado e reconheço por quais razões “A Mosca” de 1986 se tornou um grande clássico e Cronemberg o propulsor do gore. A maioria das obras do diretor, principalmente os filme de inicio de carreira, são muitos referenciados pela presença da escatologia e o flerte com a ficção científica. O que de fato o ajudou a obter grande notoriedade. No entanto, Cronemberg é um dos poucos diretores que realmente merece a alcunha de "O Mestre Melancólico do Horror".

David Cronenberg
Os filmes de Cronenberg são de uma obscura e incomum beleza. Representam, poeticamente, a realidade depressiva, desesperançada e inevitavelmente trágica em que vivem seus personagens. Indivíduos atormentados, deveras doentios, e que ao longo de suas estórias travam drásticos embates com seus inimigos ocultos. Adversários que não residem no mundo exterior ou são criaturas revestidas de feições dantescas, mas sim, seus próprios medos e insanidades, presentes em temíveis e desconexos diálogos entre consciência difusa e a débil razão.


Uma das razões pelas quais criei esse blog é justamente para tratar de alguns filmes peculiares como este. E são por essas razões que a refilmagem de Cronenberg é tão marcante, devido à visão intimista e obscura de seus personagens: confusos, frágeis, estranhos, loucos e débeis.

A HISTÓRIA

O clássico de 1986 narra trajetória do cientista Seth Brundle (Jeff Goldblum) que está trabalhando para a Empresa Bartok em um experimento altamente secreto, um teletransporte. Para garantir o sigilo de sua pesquisa, Brundle montou seu laboratório em um prédio semi-abandonado na periferia da cidade. Desde então a sua vida se restringe praticamente ao estudo e trabalho incessante.

As coisas começam a mudar quando o cientista conhece a jornalista Verônica Quaife (Geena Davis) em um congresso científico. Entre lufas alcoólicas e flertes platônicos, Brundle se encanta com a beleza da jovem (apesar dos cabelos poodle, Geena se tornou um símbolo de beleza exótica até meados dos anos 90), conseqüentemente, convidando-a para passar algumas semanas em sua companhia para documentar aquilo que seria a “invenção que mudaria o modo do ser humano se locomover”. A jornalista, sedenta por um furo de reportagem, aceita documentar os fatos científicos.

Jeff Goldblum e Geena Davis

Brundle expõe o seu invento, explica que o processo funciona fazendo que o objeto utilizado seja desmaterializado instantaneamente em um terminal, para depois se reconstitua em uma fração de segundos no outro. No entanto, o invento funciona muito bem com objetos inorgânicos, porém com seres vivos, deixou a desejar, causando a deformação de muitos animais vivos.
   
Deste ponto em diante Cronenberg narra aspectos singulares de seus personagens. Demonstra a mente fascinante do jovem cientista e o encantamento da jornalista com a sua natureza sábia e incomum, contrastando com aspectos de sua frágil solitude social. E por fim, com o convívio, nasce um sentimento único entre ambos.

Para infelicidade de Bundle, o editor da revista a qual Verônica trabalha e um ex-namorado, Stathis Borans (interpretado pelo canastrão John Getz). E para não comprometer o seu romance com Seth Brundle, ela resolve dar um basta intromissões Stathis. Porém os fatos são mal interpretados pelo cientista que é tomado por ciúmes entorpecidos em uma razão amorfa aos fatos. Sentindo-se traído e indesejado, Brundle povoa a sua mente de turvas concepções, embriaga-se para tragar o amargo fel da desilusão. Possuído por um ímpeto de dor e fúria, resolve testar o invento em si mesmo, como uma forma de expurgar as frustrações e ao mesmo tempo provar a si mesmo que é capaz.


Ao realizar o procedimento, tudo parece muito bem, o teletransporte de matéria acaba sendo realizado com sucesso. No entanto, o cientista não percebeu que ao entrar na máquina, uma mosca o seguiu. No momento em que o procedimento foi ativado pelo cientista, o seu corpo e também o corpo da mosca, foram desintegrados em um terminal, e reconstituídos no outro.

A princípio, Brundle conclui êxito em sua experiência, sentindo-se até revigorado. Mas a máquina não havia sido projetada para teletransportar dois corpos distintos de uma única vez, de forma que, no momento da reconstituição, o processo fundiu em nível molecular o corpo de Brundle com o corpo do inseto. E ao contrário do filme de 1958 o cientista sofre sérias mudanças físicas e mentais, por completo. E por fim, gradativamente se transformando em uma mosca gigante.


O filme se desenvolve muito rápido até o seu grande êxtase. Brundle descobre que possuiu força e agilidade sobre-humana, imaginando que os cálculos de seu invento, não direcionaram apenas ao fato de teletransportar a matéria, mas sim, revigorar a estrutura molecular, transformando-a em uma matéria pura e suprema a natureza inicial. O que vemos a seguir são cenas do cientista “auto-suficiente”, provando a si mesmo e ao mundo a sua onipotência, como na clássica cena aonde ele literalmente arrebenta o pulso de um cara durante uma disputa de "queda-de-braço". No entanto, paralelamente, o personagem demonstra claros sinais de debilidade racional, proferindo idéias desconexas, como o fato de obrigar a jornalista a passar pela máquina para também se tornar um ser puro, uma “pessoa especial”. Essa demência gradativa do cientista acaba levando o relacionamento ao fim. E com o passar dos dias ele é cometido por uma grave doença que o torna consideravelmente debilitado. É neste ponto que se inicia as formas que o consagrou Cronenberg em termos de gore e escatologia em geral.

O cientista, após algumas pesquisas, se dá conta que a máquina não revigorou a sua matéria, mas sim, moldou o seu DNA com o da mosca. E que toda a decomposição corpórea nada mais é que a sua metamorfose ao estagio final. Seu corpo é possuído por manchas escuras, seguida de pêlos grotescos, as unhas e orelhas começam a cair em meio a secreções gosmentas que são expelidas constantemente de seu corpo. (argh!) Seth Brundle se isola completamente do mundo exterior. Somente após vários meses, Verônica recebe uma ligação do que restou de Brundle, pedindo para que ela vá até o seu apartamento. Ao chegar ao local a moça inevitavelmente se surpreende com o estado deplorável que se encontra o cientista.


Considero a cena a seguir, um dos pontos fortes do filme, o que vemos é a demência e idolatria do hibrido homem mosca ao seu gradativo e deplorável estágio larval. Neste ponto somos cometidos por uma série de seqüência de pura nojeira e bizarrice poucas vezes vistas até então em uma produção hollywoodiana. Brundle, ainda sim inspirado por seu espírito científico, se encontra totalmente fascinado com os percalços que a mãe natureza toma para seguir o seu percurso natural. Demonstra que a decomposição de sua matéria, como a queda dos dentes, lhe trouxe novos “benefícios”, fazendo com que a vida siga o seu percurso natural. Diante das explicações, ele demonstra a realidade dos fatos, literalmente vomita sobre um biscoito, com o intuito de depois ingeri-lo, junto com o próprio vômito. E explica que o vômito na verdade é uma solução repleta de enzimas que tem a função de decompor os alimentos para que depois sejam ingeridos, em um processo alimentar similar ao das moscas.


O filme prossegue belamente (interprete o lado mais vil da palavra ‘belo’), trilhando uma luta entre a “consciência humana” e o “instinto de sobrevivência do inseto”, naturezas impulsivas se conflitando em uma única matéria. E apesar deste artigo conter um “belo spoiler” sobre a película, deixo para aqueles que não assistiram, o sabor do culminante final ao assistirem o filme. Pois é interessante perceber que pouquíssimos filmes tem a audácia de criar cenas tão repulsivas, mas que ao mesmo tempo não caem no modismo “asco pelo asco”. Além da metamorfose do homem em mosca, toda essa transformação representa a mutação da consciência de um ser humano debilidade emocionalmente, bem ao estilo de David Cronenberg, amargo e pessimista.


É claro, infelizmente os filmes, principalmente americanos, optam por investir em refilmagens européias ou asiáticas, estragando de forma vigorosa a natureza inicial da obra, como ocorreu com a refilmagem em 2010 do belíssimo filme sueco “Deixe Ela entrar (2008)” [veja Aqui]. Deploravelmente o cinema americano vem investindo em “sustinhos” manjados, com cenas de morte “fora da tela” para agradar a censura, obtendo uma resposta comercial. Mas, não quero que você, leitor, faça desse comentário uma ode a banalização da morte como ocorreu com os protótipos inspirados na série de filmes “Jogos Mortais”. Estou me referindo a arte de contar histórias realmente densas sobre a natureza humana, histórias que façam o telespectador refletir sobre a sua ambivalência e ver que a violência é projeto do meio.

DOWNLOAD

Ambos os filmes tratados neste artigo foram relançados no mercado em DVD em 2007. Em qualquer site especializado você encontra as obras com belíssimos extras. Porém, para apreciação disponibilizo o arquivo torrent dos dois filmes. Bom Divertimento.


The Fly (1958)
Título em português: A Mosca de cabeça Branca
Direção: Kurt Neumann
Imagem: Cores

The Fly (1986)
Título em português: A Mosca
Direção: David Cronenberg
Imagem: Cores

Arquivo Torrent + Legenda em Português (FLY.rar)

 



sábado, 10 de abril de 2010

MARTYRS (2008) Dir. Pascal Laugier



Uma experiência neurovisual


Sem sombra de dúvidas “Martyrs” é uma experiência neurovisual sobre a sutileza do horror contido na mente humana como raramente é apresentada dentro do paralelo entre as expressões Horror e Gore. É um filme que supera todas as propostas, caricatas, já representadas dentro deste gênero tão rasurado por produções medíocres. “Martyrs” é uma das raríssimas exceções em que a temática tão condenada no meio cinematográfico é apresentada de forma séria e confiante, trazendo uma trama visual tão angustiante, quanto dramática e fascinante. É ao mesmo tempo, inesperada e surpreendente, levando o telespectador a diversas sensações que oscilam entre agonia, tensão, horror e tristeza.


HORROR COM CRIATIVIDADE
A revelação do horror Francês


Este fantástico e agonizante filme é dirigido pelo francês Pascal Laugier que também é responsável pelo impecável roteiro, tornando o filme digno de sua excelência. Repito, não é mais um longa com várias cenas clichês que giram em torno de banhos de sangue e violência gratuita. A sagacidade narrativa desta obra excede o próprio horror contido nas cenas, levando o telespectador a transcender a violência, focando a tensão de sua mente nas causas primárias da trama, sutilmente indefinidas, mas pouco a pouco, compostas como um quebra-cabeça com peças que nos são ofertadas cautelosamente. E este é o grande segredo desta singular produção de Pascal Laugier, trabalhar com a mente do telespectador, manipular o despertar dos sentidos diante de algo que parece obvio, porém, análogo a qualquer conclusão previa, culminando em uma progressão e final inesperado.

Particularmente falando eu não conhecia os trabalhos de Laugier, apesar de estar familiarizado com algumas produções independentes do cenário Europeu. Confesso que fiquei muito surpreso e impressionado com sua consistência, principalmente diante de sua competência ao desvincular a acefalia cinematográfica contida nos filmes do gênero. Trazendo assim uma roupagem renovada, tangendo uma trama psicologicamente inteligente e perturbadora. Sem contar com o seu tratamento a edição, cortes secos sem impacto sonoros, trabalhando belamente com a trilha sonora em contraste com os efeitos visuais mais impressionantes e realistas que já vi.


UM PONTO POSITIVO
Qual é a proposta do Horror?


É muito difícil o gênero Horror causar alguma impressão positiva neste que vos fala. Refiro-me ao quesito - objetividade e criatividade na produção. A maioria das obras conhecidas do gênero não passam de um amontoado de tripas e humor negro inexpressivo que servem apenas para justificar a ausência de uma trama coesa e inteligente. Lembrando que me refiro apenas aos filmes de Horror. Pois há uma gigantesca diferença entre as propostas contidas (e subgêneros) entre os gêneros Horror e Terror.  E para ser cômico e tosco já contamos com linha B dos filmes de terror, representada pelos clássicos como “Dead-Alive” (Peter Jackson), “From Beyond” e “Re-Animator” (Stuart Gordon), “Evil Dead” (Sam Raimi) dentre outros. Cômico e tosco, não deveria ser a proposta do gênero Horror.

Realmente sou contra a banalidade apresentada pelo gênero. Muitos filmes apenas beiram a questão prática e cômoda ao apresentar “o asco pelo asco”. Acredito que tal gênero, o Horror, tem muito oferecer quando produzido com sagacidade e astúcia. Pois a estratagema, o “As de Espada”, o grande ardil, espírito vivo do gênero Horror é justamente ressuscitar reflexões impactantes sobre o lado vil da mente humana, despertando assim, sentimentos e pensamentos vivos, antes inexpressivos, devido ao enorme banquete de violência banal que nos é ofertado diariamente. Atualmente esta é a grande muralha do Horror, exceder a banalidade das atrocidades humanas, excitando sensações impares através dos sentidos adormecidos. Impulsionando questionamentos atrofiados devido à banalidade atroz de nossa espécie.
   
De fato é uma tarefa muito difícil, pois estamos diante de uma agremiação de indivíduos frígidos de sensações e percepção. Estamos diante de uma sociedade cadavérica consumida pela praticidade como a violência se reproduz. Tudo isso nada mais é que um grande deleite a indústria do entretenimento e informação. Pois não são os filmes de terror (ou Horror) que banalizam a violência, mas a facilidade como as atrocidades humanas são cultuadas e salientadas em nossas mentes através da roupagem “informação jornalística” que a mídia nos apresenta. Isso torna o indivíduo cada vez mais insensível perante a vida e a morte. Estamos acostumados com o caos, ele faz parte de nossa rotina e é a justificativa mais prática para nossas fúteis indagações.

São poucos os filmes intitulados Horror que não caem na banalidade visual: violência pela violência. Afinal o que há de mais grotesco que ainda não vimos e que possa nos chocar? Essa tem sido a pergunta que muitos cineastas tentam responder, excitando ainda mais o culto a violência gratuita. A pergunta correta seria: “Diante de todo horror. O que não conseguimos vislumbrar sobre a bestialidade de nossa natureza?”



MARTYRS: O FILME
Palavras não valem a experiência diante da tela

O cenário cinematográfico Frances é composto por grandes diretores como Jean-Jacques Annaud responsável por filmes como "Seven Years in Tibet" (Sete anos no Tibete), Der Name der Rose (O Nome da Rosa) e outros nomes de peso como Marc Allégret, André Berthomieu, Pierre Colombier e etc. Porém nada se compara ao cenário  cinematográfico atual do Horror Frances. “Alta Tensão” (Haute Tension / High Tension, 2003), “Eles” (Ils / Them, 2006), “A Invasora” (À L´intérieur / Inside, 2007), “Fronteira (A)” (Frontiere (s) / Frontier (s), 2007), e agora “Martyrs” (2008). Ao contrário das produções americanas, os filmes franceses vêm se destacando em originalidade no enredo e sagacidade na direção ao apresentar de forma coesa todas as visões violentas e perturbadoras do horror, sem cair nos excessos e cenas clichês tão comuns ao gênero.


Quando assisti “Martyrs”, só tinha conhecimento superficial de seu conteúdo e algumas informações técnicas. É isso que deixo a vocês, caros leitores, pois justamente a experiência neurovisual não se compara a uma sinopse que desmistificará toda a surpresa diante da progressão que “Martyrs” tem a oferecer. E foi justamente por não saber muito sobre o desenvolver da trama que ela se tornou cativante com a progressão do filme. 

A principio se imagina “mais um filme de menininha” com visões aterradoras. Depois surgem as vinganças e logo você começa a prever o final até que nenhuma das peças se encaixam, então o filme, pouco a pouco, lhe apresenta novos fragmentos para aquilo que irá compor um final completamente incomum. 


Martyrs é dividido em duas partes distintas, ambíguas, porém tão sutil que ao final tudo se encaixa perfeitamente, deixando o telespectador boquiaberto ao desvendar a razão dos fatos. A primeira parte é definida por narrativas compostas por puro e violento horror. Algo que mistura traumas psicológicos com perseguição fantasmagórica e uma revolta incompreensível.  A segunda parte não pode ser caracterizada apenas como “torture porn”, mas sim como um drama e um estudo do que o ser humano é capaz de realizar para obter respostas cientificas. 



Os trinta minutos finais são carregados, desconfortáveis, angustiantes e por fim poéticos. E mesmo que para alguns o final seja cínico, há uma reflexão perturbadora sobre os princípios da natureza humana. E com certeza você sentirá, pelo menos, um pouco de tristeza diante de tudo o que se concluiu. Não é um filme para muitos, mas recomendo para aqueles que desejam novas experiências, sem falso moralismo perante a violência que é apresentada.

Mártir: Nome, Adjetivo. Do grego “Martures” - Testemunha


FICHA TÉCNICA

Direção: Pascal Laugier
Roteiro: Pascal Laugier
Produção: Richard Grandpierre; Simon Trottier; Frédéric Doniguian; Marcel Giroux
Edição: Sébastien Prangère
Música: Alex Cortés ; Willie Cortés
Elenco: Morjana Alaoui (Anna); Mylène Jampanoï (Lucie); Catherine Bégin (madame); Robert Toupin; Patricia Tulasne; Juliette Gosselin (Marie); Xavier Dolan-Tadros (Antoine); Isabelle Chasse (a criatura); Emilie Miskdjian; Mike Chute; Gaëlle Cohen
Origem: França/Canadá
Gênero: Horror


[Atualização das fontes para download em 01/06/2020]


DOWNLOAD TORRENT+LEGENDA
Resolução: 1080 dpi
Formato: MP4
Legenda:Sim 
Fonte: Mega.nz
Nome do Arquivo: Martyrs.rar


DOWNLOAD DIRETO
Resolução: 1080 dpi
Formato: MP4
Legenda:Sim 
Tamanho: 1.50 GB
Compactação: Winrar
Fonte: Mega.nz
Nome do Arquivo: Martyrs(F).rar