terça-feira, 3 de março de 2015

The ABC's of Death 2 (2014)


Olá leitores do Imemorável!

Para quem acompanha o blog e minhas narrativas sobre o cinema de bordas com certeza se recordará da primeira premissa que fiz sobre o projeto The ABC’s of Death [veja AQUI]. O projeto consiste em reunir curtas, cada qual, abordando uma letra do alfabeto. E claro, todas as letras relacionadas com o tema “Morte”. Nesta coletânea de estórias sobre o fim comum a todos estão reunidos diversos diretores de nacionalidades distintas e diversos conceitos de narrativa. São aproximadamente 26 histórias em diversos formatos e gêneros narrativos. 

A idéia do projeto é bem simples. Cada diretor produz um curta utilizando uma letra de livre escolha. Envia para o projeto. O curta selecionado entrará na antologia. Após ver os curtas que não entraram na primeira antologia, confesso que fiquei decepcionado com as escolhas da comissão julgadora. Em meu ponto de vista muitos curtas superiores ficaram de fora da primeira seleção. Felizmente isso não ocorreu em sua continuação, The ABC’s of Death 2. Saiba as boas razões lendo esse artigo.


AS LIÇÕES DA MORTE, PARTE II


Geralmente as continuações sempre deixam a desejar, mas em The ABC’s of Death 2 há uma excelente seleção de curtas que fazem com que as duas horas filme praticamente voem. Começando já com o primeiro curta “Amateur” do diretor E. L. Katz que narra à história de um assassino iniciante. Katz nos mostra que nem tudo é tão fantástico como em filmes ao estilo de “Missão Impossível”.  O diretor fez a sua estréia no cenário com interessante “Cheap Thrills (2013)”, longa que narra o jogo de ganância entre dois grandes amigos que são manipulados por um rico casal após se conhecerem em um bar.


Cheap Thrills (2013)

O interessante do projeto “The ABC’s of Death” é que não existe critério de gêneros, ou seja, não há só diretores de filmes de terror. Isso fica bem claro no curta “Capital Punishment” do diretor Julian Gilbey. Gilbey  é conhecido por filmes como “Rise of the Footsoldier (Guerra Entre Gangues)” e “Rollin' with the Nines (9mm - O Preço da Vingança)”. Em “Capital Punishment” o diretor nos da uma luz sobre os efeitos colaterais de se fazer justiça com as próprias mãos.


Outro diretor presente é o Sr. Robert Morgan. As histórias góticas e sombrias de Tim Burton tem classificação 6 anos perto das animações soturnas de Sr. Morgan. Para aqueles que acompanham o Imemorável provavelmente irão se recordar do curta “The Cat with Hands” [veja AQUI]. Uma fábula sombria sobre um gato que adquiri, misteriosamente, mãos humanas. Mas através da animação “Bobby Yeah” que Morgan define seu estilo sombrio em stop-motion com narrativas insólitas vindas de uma imaginação grotescamente fantástica. Neste ABC da Morte o diretor nos apresenta os infortúnios de se jogar com o ceifador de vidas no curta “Deloused”.


Bobby Yeah
O sarcasmo também se faz presente com Alejandro Brugués e seu curta “Equilibrium”. Brugués ganhou sua “notoriedade” com o trash clichê “Juan de los Muertos (2012)”. Algo totalmente oposto com o curta que vem asseguir “Falling”. Da dupla de diretores israelitas Aharon Keshales and Navot Papushado. Certamente o nome dos diretores não é algo tão fácil de lembrar, mas eles já são conhecidos pelos filmes “Rabies  (2010)” e “Big Bad Wolves (2013)”. Em “Falling (Cair)” nos deparamos com a história de uma israelense pára-quedista mulher que está presa em uma árvore por seu pára-quedas e o destino faz com que um garoto árabe a encontre. O curta se desenvolve no choque de culturas e ideologias. Quem é a vítima? Eis o drama dessa narrativa. 


No entanto uma das maiores surpresas que tive foi presença de um curta brasileiro. Sim, nada mais, nada menos que um curta do diretor Dennison Ramalho. Para aqueles que desconhecem Dennison faz parte da nova safra de diretores brasileiros que trazem em suas narrativas um pouco do cotidiano e folclore brasileiro. Ao lado de diretores do universo independente como Rodrigo Aragão (Mar negro), Paulo Biscaia Filho (Nervo Craniano Zero), José Mojica Martins (À Meia-noite Levarei Sua Alma) e Kapel Furman (Pólvora Negra). Unido a esses nomes de peso do cenário underground o diretor reescreve uma nova história sobre o cinema de bordas nacional. Provando que o termo “horror” não necessariamente co-existe com produções de péssima qualidade e falta de profissionalismo. E principalmente, por não ser uma narrativa para elite social, permite sem preconceitos explorar os medos e os devaneios da sociedade contemporânea sem perder o peculiaridade do gênero que o horror tende a se expressar.


Encarnação do Demônio
O diretor teve seu “début” na cena independente com o macabro curta “Amor só de mãe (2003)”. O curta explora o culto a certas divindades baixas adoradas por moradores locais em uma aldeia de pescadores. Em 2010 ele retorna a cena com o curta “Ninjas”, narrando os traumas que a violência pode causar [veja AQUI]. Mas foi como roteirista ao lado do diretor José Mojica Martins que seu profissionalismo teve mais visibilidade no longa “Encarnação do Demônio (2008)”. Longa importantíssimo para a história do cinema nacional pois fecha a trilogia que levou mais de 30 anos para ser concluída!


Sua estréia no projeto ABC é simplesmente fantástica, tanto do ponto de vista crítico, quando do ponto de vista estético. Com o curta “Jesus” o diretor apresenta a história um casal de jovens homossexuais que são vitimados pela violência da intolerância social e religiosa. Um dos enamorados e morto e o outro, a mando do próprio pai, é submetido a um exorcismo. Com extrema qualidade de edição, roteiro, maquiagem e produção o curta faz sérias críticas a um fato tão cotidiano, abordando uma narrativa que caminha passo á passo ao horror tipicamente brasileiro.


"JESUS" por Dennison Ramalho
E claro, não poderia faltar à visão surreal, bizarra, cômica, criativa e subversiva do cinema oriental. Hajime Ohata com o seu curto “Ochlocracy” narra a história de uma mulher humana sendo julgada por seus atos de assassinatos aos não-vivos por um júri de zumbis. E Soichi Umezawa com o curta “Youth” narra à imaginação vingativa de uma jovem diante de pais displicentes. 

E por que não torture porn? Talvez não da forma como você imagina. Mas as irmãs gêmeas  canadenses  (sensualmente mortíferas) Jen and Sylvia Soska revelará uma visão feminina ao gênero com o curta que o define “Torture Porn”. Detalhe para a belíssima (digna do título “tentação”) Tristan Risk que também participou de outro filme das diretoras gêmeas, “American Mary (2012)”.  


Continue lendo pois ainda temos entre as grandes exibições um veterano do horror estratégico! O diretor Vincenzo Natali. Vincenzo deixa sua marca com o curta “Utopia”. Um curta inteligente que expõem os desejos mais íntimos de uma sociedade voltada à imagem de consumo. O título de veterano é digno ao diretor justamente por um dos seus maiores clássicos. O filme que considero “pai” da série “Jogos Mortais”. Que filme é esse? Simples “O Cubo ” de 1997. Quem nunca assistiu, anote esse dica!

E claro, não poderia deixar de falar da participação dos diretores Julien Maury e Alexandre Bustillo. Ambos da nova safra de diretores franceses do gênero que gosto de intitular como “Cinema Frances Extremo”. Realmente esses dois profissionais merecem longos comentários sobre seus méritos em desbravar o horror como jamais visto, tanto em estética, quando em roteiro. Algo que é marca registrada dos diretores da cena do “Cinema Frances Extremo”.  Por essa razão convido a lerem a postagem e assistirem “A L'intérieur (A Invasora)”. Grande filme do gênero com a minha psicopata favorita, Béatrice Dalle. [veja AQUI] No ABC da Morte os diretores nos presenteiam com o curta “Xylophone”. História de uma babá que entra em estado hipnótico ao som do xilofone. E quem é a “babysitter” do curta? Olha só Béatrice Dalle! Um pouco mais velha, mais ainda com uma sensualidade e obscuridade digna de seus personagens. 


Béatrice Dalle em “A L'intérieur (A Invasora)”

Quem deseja ver Béatrice Dalle em sua melhor forma, leia o artigo sobre o filme (tradução livre) “Desejo e Obsessão” da diretora Claire Danis. [veja AQUI] Você ficará diante de uma ninfomaníaca como jamais viu.


E claro, não poderia faltar algo realmente horripilante e com umas pitadas de gore. Para última letra do alfabeto e último curto da antologia temos o angustiante “Zygote (Zigoto)” do diretor Chris Nash. Nash em sua filmografia não tem nada que seja significante. Mas lhe garanto o curta “Zygote” vai lhe deixar desconfortável na poltrona. A história é bem simples. O marido por uma razão desconhecida deixa a esposa em plena nevasca para fazer o trabalho de parto sozinha. Ela implora por sua presença, mas ele continua persistente na decisão em deixá-la, prometendo voltar quando tudo acabar. Agora pense comigo. Não podemos adiar o nascimento de um bebê, certo? Errado! E Nash irá nos provar o contrário da forma mais angustiante possível!

FIM DAS LIÇÕES

The ABC’s of Death 2 fez uma ótima seleção, espero que vocês apreciem o filme e comente esse artigo. Disponibilizo a listagem dos títulos dos curtas e seus respectivos diretores, além dos arquivos para download. Os títulos destacados são aqueles que considero imprescindível não deixar de assistir.


LISTA DE CURTAS


(A) is for Amateur (Amador) 
Dirigido por E. L. Katz


(B) is for Badger (Texugo)
Dirigido por Julian Barratt



(C) is for Capital Punishment 
Dirigido por Julian Gilbey



(D) is for Deloused 
Dirigido por Robert Morgan 

(E) is for Equilibrium 
Dirigido por Alejandro Brugués



(F) is for Falling 
Dirigido pores Aharon Keshales and Navot Papushado

(G) is for Grandad 
Dirigido por by Jim Hosking

(H) is for Head Games
Dirigido por Bill Plympton



(I) is for Invincible 
Dirigido por by Erik Matti 



(J) is for Jesus 
Dirigido por  Dennison Ramalho

(K) is for Knell 
Dirigido pores Kristina Buozyte and Bruno Samper

(L) is for Legacy
Dirigido por Lancelot Odawa Imasuen

(M) is for Masticate 
Dirigido por Robert Boocheck

(N) is for Nexus 
Dirigido por Larry Fessenden



(O) is for Ochlocracy 
Dirigido por Hajime Ohata

(P) is for P-P-P-P SCARY! 
Dirigido por Todd Rohal

(Q) is for Questionnaire 
Dirigido por Rodney Ascher

(R) is for Roulette 
Dirigido por Marven Kren*

(S) is for Split 
Dirigido por Juan Martinez Moreno



(T) is for Torture Porn 
Dirigido Jen and Sylvia Soska

(U) is for Utopia 
Dirigido por Vincenzo Natali

(V) is for Vacation 
Dirigido por Jerome Sable**

(W) is for Wish 
Dirigido por Steven Kostanski



(X) is for Xylophone 
Dirigido por Julien Maury and Alexandre Bustillo

(Y) is for Youth 
Dirigido por Soichi Umezawa



(Z) is for Zygote 
Dirigido por Chris Nash


FICHA TÉCNICA

Título Original: ABCs of Death 2 
Gênero: Horror, Comedia, Animação
Ano: 2014
Minha nota: 7,9


DOWNLOAD

Torrent + Legenda em Português (ABC2.zip)

 

AVISO: Se você curtiu ter achado o filme que tanto procura e ainda curtiu ter uma análise bacana sobre o mesmo, lembre-se. Quando baixar o torrent, não o delete de imediato, deixe compartilhando para que outros tenha a mesma satisfação que você. E comente o artigo, seja aqui ou na página no facebook [Link]. A generosidade agradece.  

sábado, 26 de julho de 2014

“Lights Out” de David F. Sandberg



O medo na maioria das vezes é inominável e desconhecido. De fato esse sentimento angustiante nada mais é do que o sussurro de nossa essência animal. Sem o medo, não teríamos a consciência dos perigos a nossa volta e certamente já estaríamos extintos. Mas e quando nossos medos mais ocultos tomam formas reais? Essa é a proposta do curta “Lights Out” de  David F. Sandberg. Assista com as luzes apagas se tiver coragem. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Black Snake Moan (2006) Dir. Craig Brewer



“Quando o desejo corre entre as pernas como uma serpente rastejando no deserto. Quando o blues ecoa na alma canções de solidão, morte e desejo. Basta ser humano para se perder em tão íntimo caos” [Domenium]


Em quantos frames podemos ver Christina Ricci apenas de roupa íntima? Essa é a sensação que temos nos primeiros minutos de “Black Snake Moan”. Mas o filme vai muito além das primeiras premissas. A obra do diretor Craig Brewer nos leva a uma jornada de pedras. Narra a história de duas almas açoitadas por suas dores e mágoas, duas almas em busca da redenção de seus sentimentos. Cada qual em seu inferno particular, ambas vivendo no purgatório social situado em uma cidadezinha do interior. Quando ambas se encontram surge a conjuração dos polares opostos, Ying e Yang. O duelo entre a serpente e o cordeiro. Apenas o blues, o álcool e a esperança entre o céu e o inferno são as únicas certezas neste caminho sem volta.


BLUES, SUOR E CARNE

Christina Ricci é Rae Doole, uma jovem sem futuro vivendo na terra do nunca, uma pequena cidade do interior do Mississippi. Ricci é carne viva. É fogo que arde sem queimar. Em seu corpo uma serpente rasteja insaciável. Não sabemos se sexo é a sede de sua carne ou uma necessidade incompreensível de expurgar o vazio que ecoa em suas entranhas, clamando sua presença para as profundezas do íntimo caos. Mas de fato a jovem é uma ninfomaníaca irremediável aos olhos dos moradores. Carne fácil da cidade do interior. Michael Douglas ficaria no chinelo perto dos desejos insaciáveis dessa pequena volúpia.


Todos da cidade já conheciam o seu cheiro, seu gosto e as úmidas pétalas Rae Doole. Mas as coisas pareciam ter mudado de um tempo para cá. A pequena já não semeava seu polém em outros jardins. A vida da moça entrou em uma espécie de equilíbrio após começar a se envolver plenamente com um rapaz de família, um tal de Ronnie (Justin Timberlake). Mas como para a presença da dor basta existir a abstinência do amor. As coisas tomariam um outro rumo.  















Ronnie deixou a jovem, seguindo viagem para Tennessee a serviço da Guarda Nacional. Em sua ausência Rae Doole ouve novamente o caos sussurrar e a serpente dançar em suas entranhas até se transformar em um intenso desejo. Apartir daqui a viagem é uma intensa ladeira. Sexo, drogas, álcool e libertinagem fazem parte da jornada ao abismo de si mesma.

Na outra ponta da história temos Lazarus (Samuel L. Jackson), um fazendeiro profundamente religioso e bluesman aposentado. Ele vive um dilema moderno. Sua esposa o deixou por um homem mais jovem, pois via nas feições do agricultor o fim de sua própria vida. O dilema seria pouco se o amante de sua esposa não fosse seu próprio irmão. Com o orgulho ferido e um coração em sangria, Lazarus abraça o blues e o álcool para compor a melodia de sua desilusão. E como escapismo, o blues, a melancolia, sua guitarra, surge para alguém em um momento em que sua fé está ao ponto de ser testada.


É no meio do caminho que ambas as criaturas perdidas se encontram. De um lado a “succubus” Rae Doole devorando e deixando ser devorada pelo primeiro que cruzar o seu caminho. De outro lado, Lazarus um cordeiro em dúvida que abraça o verbo do diabo, o blues, em busca de sua libertação. No entanto aos olhos de Lazarus a jovem de curvas fáceis é um desafio a desbravar, uma provação de seu deus, uma curva em seu destino.


O encontro ocorre em uma manhã de domingo. Lazarus se depara com o corpo semi-nu de uma jovem abandonado a beira da estrada frente a sua propriedade. Visivelmente ferida o ele a carrega em seus braços. A jovem, tomada por um ataque febril e delirante tenta envolver Lazarus em seu templo íntimo. Assustado o homem de deus deixa a moça aos gritos e delírios. Porém não desiste da provação que foi lhe dado.


Após investigar com alguns moradores da cidade Lazarus tem a imagem "mundana" de quem é Rae Doole. No entanto ele não desiste de sua tarefa, trazer a jovem a sua sanidade mental, salva-la do desejo incontrolável por sexo. Para isso o homem acorrenta a jovem no aquecedor. Eis que o filme vai ficando cada vez mais interessante. Vemos agora uma batalha entre Ying e Yang, cada qual, lutando contra si mesmo e contra o outro. Cada qual conhecendo a si mesmo e o próximo. Ambos utilizando as suas armas. Doole a sedução e a loucura. Lazarus a dedicação, a palavra de deus e o blues.


CURIOSIDADES SOBRE O FILME


O título nacional “Entre o Céu e o Inferno” pode ser bem atrativo mas o título original faz muito mais sentido à trama. “Black Snake Moan” é uma canção do músico guitarrista, bluesman, “Blind” Lemon Jefferson. A canção fala do desprezo da mãe para com o filho. Com o passar da história descobrimos que os desejos insaciáveis de Rae Doole têm fundamentos além da libertinagem gratuita. Quando criança, ela sofreu abusos sexuais, o sexo sempre esteve presente em sua vida. 


"Blind" Lemon Jefferson foi um dos mais populares cantores de blues da década de 20. Pai do estilo conhecido como “delta blues”. Estilo que teve a sua origem na região do delta do rio Mississippi, nos Estados Unidos. Essa região é conhecida tanto pelos solos férteis e também por sua pobreza extrema. Guitarra e gaita são os instrumentos predominantes. Por essa razão o músico ganhou o título “Pai do Texas Blues”. Mesma razão que o filme traz inúmeras referências ao movimento Mississippi Blues, nomeadamente em seu título e trilha sonora.

A alcunha “blind” (cego) em seu nome é devida cegueira de nascença. Lemon nasceu em 1893 e morreu em 1929 de uma peculiarmente estranha, porém lendária a qualquer filhos do blues. Em seu atestado de óbito diz "provavelmente miocardite aguda". Mas a lendas circulam e isso torna as estórias mais interessantes. Uns dizem que ele morreu após tomar um café envenenado por sua namorada ciumenta. O sujeito era cego, mas parecia não ter apenas as "mãos bobas". Outros dizem que ele sofreu um ataque cardíaco ao ficar desorientado após uma nevasca e teria congelado até a morte. Até um ataque de cachorro louco foi à razão da morte do pobre Blind Lemon Jefferson. Mas a minha versão favorita é aquela que narra sua morte em um assalto na estação de trem. Dizem que ele foi morto roubarem o dinheiro que o músico havia recebido em royalties. Uma morte típica dos filmes de faroeste! Independente da razão de sua morte, Samuel L. Jackson incorporou a essência do velho “blind” ao cantar a triste canção “Black Snake Moan”.


Outra curiosidade bem bacana. Para que Samuel L. Jackson realmente vivesse o músico, ele passou sete horas por dia, durante meio ano aprendendo a tocar guitarra para executar várias músicas que ouvimos durante o filme. As aulas e os exercícios aconteciam nos intervalos e durante a produção do filme “Serpentes a Bordo (Snakes on a Plane)”. O resultado foi mais do que curioso, foi sensacional. O ator realmente absorveu o espírito “Robert Johnson” que existe em todo músico. Todas as canções interpretadas ficaram sensacionais. Direi as minhas favoritas. Além da música com título “Black Snake Moan” que ficou totalmente sombria, recomendo a canção sangue-no-olho, “Stack-O-Lee”. A canção narra uma briga entre dois sujeitos ao estilo "Say what again motherfucker" de Jules Winnfield, personagem de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction.




Christina Ricci, nossa eterna “kat” do filme “Gasparzinho, o Fantasminha Camarada (Casper) 1995” entrou na personagem utilizando correntes reais que pensavam 40 libras (18 kg). As calcinhas utilizadas eram de suas próprias gavetas, assim como um par de botas de cowboy, uma jaqueta Wrangler e um short. Antes do início das filmes e durante  a atriz comia apenas alimentos sem valor nutricional para alcançar uma aparência doentia. Além de andar apenas de calcinha durante toda gravação para encarnar a naturalidade de não usar quase nada.

Tanto Christina Ricci, quando Samuel L. Jackson tiveram uma atuação incrível. Apesar do filme não ter sido lançado nos cinemas, consagrado “Black Snake Moan” como o retorno aos grandes papéis, tanto para Samuel L. Jackson que não víamos nada parecido desde "Pulp Fiction (1994)" do Quentin Tarantino, quando para Christina Ricci. Já o diretor Craig Brewer tem mais dois filmes assinados com a sua direção, porém nenhum deles teve tanto impacto quanto esse em questão.

Além do filme, disponibilizo aos amigos leitores a trilha sonora de “Black Snake Moan” que vai muito além de uma mera trilha sonora. Há uma verdadeira coletânea de vozes atuais do blues. Sendo que das 17 músicas, 4 são executadas por Samuel L. Jackson. Afinal o objetivo desta nova série de postagens intitulada FILMES QUE FALAM DE MÚSICA é justamente esse, mostrar uma outra linguagem da sétima arte e falar de outra expressão que também traz vida a nossa alma – a música.

Bom filme a todos e comentem a postagem! Alimente o blog com seu ponto de vista e fique por dentro das atualizações através do facebook [AQUI]


FICHA TÉCNICA

Direção: Craig Brewer
Título Original: Black Snake Moan
Título de Divulgação no Brasil: Entre o Céu e o Inferno
Gênero: Drama
Ano: 2006
Minha nota: 8,5

TRAILER




DOWNLOAD DO FILME

Torrent do filme 


Legendas em Português/ Inglês (Legenda BSM.rar)


DOWNLOAD SOUNDTRACK

1. Opening Theme - Scott Bomar
2. Ain't But One Kind of Blues - Son House
3. Just Like a Bird Without a Feather - Samuel L. Jackson
4. When the Lights Go Out - The Black Keys
5. Standing in My Doorway Crying - Jessie Mae Hemphill
6. Chicken Heads - Bobby Rush
7. Black Snake Moan - Samuel L. Jackson
8. Morning Train - Precious Bryant
9. The Losing Kind - John Doe
10. Lord Have Mercy on Me - Outrageous Cherry
11. Ronnie and Rae's Theme - Scott Bomar
12.  The Chain - Scott Bomar
13. Alice Mae - Samuel L. Jackson
14. Stack-o-lee - Samuel L. Jackson
15. Poor Black Mattie - R. L. Burnside
16. That's Where the Blues Started  - Son House
17.  Mean Ol' Wind Died Down

Download via torrent 
 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

NINJAS O horror psicológico de Dennison Ramalho [CURTA-METRAGEM]



Raramente o horror é visto como gênero maior da sétima arte. Esse mérito é dado apenas gêneros considerados mais “refinados” pela crítica especializada. Os críticos ignoram o senso estético do horror e seu estilo inverossímil de narrar à trama. Narrativa com base na degradação humana, demonstrando que o homem animal é meramente fruto do meio em que vive. Eles apóiam seus argumentos em velhos clichês do horror do cinema americano que se reproduz anos após ano e no baixo-orçamento dos filmes nacionais independentes. Na verdade o horror em sua contextualização social e narrativa sobre os limiares obscuros da mente humana nunca foi malstream. O que vendem por aí é o “terror pipocão do susto com gritinho e clichê com faca” é um pacotão americano para entreter adolescentes, facilmente impressionais e que não querem deixar de rezar antes de dormir. O horror moderno não faz apologia a criatura dantesca ou as aparições religiosas de cunho sobrenatural. Esse gênero pouco visto, porém não oculto, narra sobre o limiar da mente humana e a loucura que nos espreita na soleira da porta. “Ninja” é um belo exemplo do horror moderno em questão.

O título do curta-metragem dirigido por Dennison Ramalho nos faz pensar de imediato nos samurais e suas espadas mortais. De fato há morte em seu contexto, porém a obra em questão não tem nada haver com as artes marciais. Na verdade “Ninja” é nome de um grupo de extermínio formato por policiais paulistas que ganharam esse título por seus capuzes na cara no momento da execução. E se você pensou em uma versão curta do Capitão nascimento dizendo “senta o dedo nessa porra”, estão muito enganados. “Ninja” não é a fulga do homem bicho de seus demônios internos como fazia o Capitão Nascimento. Ninja é um acordo com o caos e seus demônios internos. Se a convivência com tais demônios não é passe, torna-os aliados da loucura em que vive.


O curta é inspirado no conto “Um bom Policial” de Marco de Castro [leia o conto – AQUI], não o stand-up comedy sem-graça, mas o policial, vulgo “Marcão” como é conhecido. Marcão vivenciou de perto a realidade da PM Paulista e muito de seus contos são baseados nesses fatos. O curta-metragem narra à história de Jailton, interpretado por Flávio Bauraqui. Jailton é o típico policial brasileiro que dança com a morte para trazer comida à mesa. Porém em uma de suas missões ele acaba executa acidentalmente um garoto. Depois deste fato o policial não consegue viver em paz com a sua consciência. É nesse ponto que seus demônios internos tomam posse de sua sanidade, trazendo sua vítima em aparições dignas do “Estranho Mundo de Mojica Marins”.


Jailton apela para religião, mais precisamente, a exploração evangélica. Os cultos que deveriam ter um efeito catalisador para suas visões infernais se tornam o principal alimento de seus demônios internos, transformando suas alucinações em uma visão surrealista e épica. Uma das cenas mais impactantes e dignas da qualidade da obra é a visão surrealista de Jailton diante de um cristo em decomposição que de suas entranhas lhe oferece uma arma como sinal de redenção. Ao contrário de outros filmes, “Ninja” não traz a solução dos problemas, elevando o personagem a uma iluminação individual. Muito pelo contrário, somente quando Jailton se torna membro do grupo de extermínio é que sua mente aceita as condições do caos.


CURIOSIDADES


 O ator Flávio Bauraqui se tornou popular em algumas novelas e seriados da Globo mas foi através das telas do cinema que seu talento se revelou  singular. Seus filmes mais memoráveis são Madame Satã, Zuzu Angel e Quincas Berro D’Água. Devido ao seu desempenho em Ninjas ele conquistou o prêmio o Kikito de Melhor Ator no Festival de Cinema de Gramado.

Para quem reclama das produções nacionais por terem um baixo-orçamento e efeitos de qualidade cômica, “Ninja” é um chute no estômago. O curta-metragem é o retorno as telas do diretor Dennison Ramalho, pai do profano curta “Amor só de mãe (2002)”. Ramalho  também foi roteirista e assistente de direção do mestre Jose Mogica Marins em seu retorno épico as telas com o longa “Encarnação do Demônio (2008)”. “Ninja” conta com grande elenco e cenas de tensão psicológicas totalmente impactantes. Os extraordinários efeitos visuais e maquiagem ficam aos cuidados do talentoso Kapel Furman que já deixou sua marca em obras como “Encarnação do Demônio (2008)”, “O Cheiro do Ralo (2006)”, “Os Famosos e os Duendes da Morte (2009)”, “Bellini e a Esfinge (2001)” dentre outros. 

Apertem o play e boa viagem!

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

A cara-metade de Harvey (2001) Dir. Peter McDonald



Um curta para quem está a procura da cara-metade
[Curta-metragem]

O que seria a tal cara-metade? Realmente fica difícil fazer qualquer reflexão sobre essa expressão tão surreal diante dos princípios que regem a sociedade contemporânea. Atualmente vivemos por conceitos completamente contraditórios diante da filosofia do “verdadeiro amor” e “virtudes humanas”. Infelizmente a maioria das relações humanas é pautada com os mesmos princípios dos tratados mercantilistas: custo-benefício. Independente da natureza de seus vínculos, amizade ou paixão, sempre fazemos uma leitura quantitativa do outro. Avaliamos as virtudes pautas e perspectivas que visam as conquistas financeiras, títulos e poses. Algo totalmente contraditório a retórica que proclamamos em músicas, filmes e poemas sobre a virtude de tais sentimentos.

Pesando na outro lado da balança surgem  as chamadas exigências do “politicamente correto” que ditam regras de felicidade: seja magro, não beba, não fume, não coma carne, pratique exercícios constantemente, seja jovem, sorria sempre. Aguçando ainda mais a angústia e a sensação de solidão de uma sociedade cada vez mais distante do contato humano. E cada vez mais nos tornamos moldes de parâmetro estético, moral e existencial. Assim como todas as coisas que consumimos. Anulando completamente a singularidade de nossas escolhas.

Harvey, personagem fictício do curta-metragem Australiano, dirigido por Peter McDonald, não está distante desse conceito. O curta narra à história de um homem obcecado pela sua "outra metade", incompleto e infeliz, que vê na vizinha do lado a chance de se ver por inteiro. Mas nem tudo aquilo que acreditamos nos perfazer necessariamente é a aquilo nos falta. A ausência pode ser de si mesmo, de uma auto-estima sobre os conceitos, valores e características que nos compõem. A ausência de um olhar mais apurado de quem somos, o que faremos com o que somos e para onde desejamos ir.

Alguns podem não gostar da forma como o diretor compõem as suas reflexões, transformando a película em uma seqüências de cenas surreais, grotesca, e para os mais sensíveis a tais expressões, desconfortante. Mas é através incomum e estranho que Peter McDonald nos revela o lado mais vil de nossa solidão, de nossa fome voraz pelo outro, de nosso egoísmo e egocentrismo diante dos sentimentos. Afinal cabe a reflexão individual de cada um. Essa é apenas a minha visão. Bom curta a todos!

Harvey (2001)
Direção: Peter McDonald
Origem: Austrália

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Wizards (1977) Ralph Bakshi


Antes de falar da animação “Wizard”, irei falar de seu criador, Ralph Bakshi. Ralph, nascido em 1938,  é designer de animação das antigas, digamos o “lado B da Disney” em plena década de 70. Ele foi um dos primeiros a adaptar o livro The Lord of the Rings (O Senhor dos Anéis) do do escritor J.J.R Tolkien para desenho animado, muitos anos antes da famosa trilogia produzida por Peter Jackson. Também é conhecido por outra animação clássica “Cool World” (conhecido no Brasil como "O mundo proibido"), filme que mistura personagens animados e atores reais como Kim Basinger e Brad Pitt. Em 1972 realizou a primeira, digamos, animação para adultos “Fritz the Cat” (baseada no personagem de Robert Crumb). Eu diria que é uma de suas animações mais conhecidas. “Fritz the Cat” narra a história de um gato envolvido em um mundo underground (uma mistura do filmes KIDS com universo Punk) cheio de drogas, sexo, rock n’ roll e literalmente gatinhas. Um mundo paralelo em que a policia são porcos. Dá para se der uma idéia, não é mesmo?

O diretor também produziu séries para TV como “Supermouse”. Na década de 70 e 80 ele foi responsável por dar mais mobilidade aos desenhos animados da Marvel como Homem-Aranha, Thor e Hulk.

Ralph Bakshi 1970

Em 1981 ele lançou "American Pop", onde aborda a evolução da música popular americana incluindo músicas de George Gershwin, Dave Brunbeck, Herbie Hancock, Bob Dylan, The Doors, Velvet Underground, Jimi Hendrix, entre outros. Em "Hey Good Lookin" (1981) e "Fire and Ice" (1983), feito em parceria com Frank Frazetta, renomado ilustrador de cenas fantásticas, que ambos desenvolveram a história de um herói da selva que resgata uma linda princesa das garras das criaturas do gelo. Mas foi em "Cool World" de 1991 que Ralph Bakshi começou a desenvolver com mais propriedade o seu lado ácido, algo que já brincava em “Fritz the Cat”. Nesta nova era  Bakshi adicionou em suas obras sátiras e comentários políticos abrindo um novo caminho para a animação com temas adultos. 

WIZARDS

Em Wizards, Ralph Bakshi nos traz um mundo de fantasia, e dessa vez, é nosso próprio mundo, num futuro alternativo que, depois de ter sofrido um holocausto nuclear, volta a ser habitado tanto por sobreviventes que se transformaram em mutantes, quanto por criaturas que antes só se viam em contos de fada. Duendes, fadas e outros retornam ao nosso mundo, quem sabe para curá-lo.




No entanto, o nascimento de dois irmãos, BlackWolf e Avatar, ambos magos, traz de volta a guerra que antes foi travada entre os nazistas e o mundo. Relíquias escavadas trazem de volta a sombra de Hitler e suas idéias, para um mundo onde magia e tecnologia travam uma guerra final. Uma das falas mais fantásticas do filme (cena acima) é quando o mago diz para os seus aprendizes:


"Meus filhos, a única tecnologia verdadeira é a natureza. Todas as outras formas de tecnologia feitas pelo homem são perversões."


Apesar de ser uma animação e com muitos takes cômicos a natureza da obra em si é adulta. Mesclando erotismo, desde as fadas menos favorecidas se prostituindo nos guetos até saliência das volúpias dos corpos. No entanto a obra vai muito além do antagonismo entre o bem e o mal. A animação retrata o poder da propaganda e da imagem como criação de ideologia e conceitos. Destruindo sonhos, construindo idéias, enfraquecendo mentes, influenciando nações e criando deuses.

A obra traz muitas referencia as propagandas utilizadas pelo Terceiro Reich e toda a propaganda para demonstrar a superioridade e invencibilidade da nação “ariana”. O personagem BlackWolf descobre nos escombros após guerra nuclear artefatos e utilizada destes objetos, inclusive um projetor, para estimular seu exército contra os bem-vividos, seguidores do mago Avatar.





Wizard arrecadou 9 milhões em sua exibição e se tornou um Cult da época. A animação é interessante pela idéia projetada sobre o poder do ego humano que sempre nos leva a nos consumir em excesso ou a destruição massiva. Como não acredito em mau-absoluto e nem em bem-absoluto, mas sim, no perfeito equilíbrio do antagonismo das partes, vejo que toda destruição que causamos é apenas excesso de nossa vaidade e orgulho. Uma frase muito interessante dita no filme reflete muito essa questão é dita pelo sacerdote das fadas ao mago Avatar:

 “Os humanos são os únicos animais que matam por prazer semelhantes da própria espécie”.



O filme em algumas partes é meio cansativo, principalmente se você está acostumado com animações digitais de consumo rápido e analogia prática. Mas a obra de Ralph Bakshi vale ser assistinda, principalmente devido ao estilo único e suas técnicas surreais que mesclam animações em desenhos traçados com projeção de vídeos e sobreposição de efeitos a imagens em movimento. A trilha sonora há boas pitadas de soft rock e muito swing de jazz. Sem contar os vícios humanos e as malicias dos personagens que são um detalhe aparte. 

Dedico esse filme a Ronnie James Dio. O trailer já diz tudo! O filme muito mais!

FICHA TÉCNICA


Direção: Ralph Bakshi
Título Original: Wizards
Gênero: Animação/ Fantasia/ Humor/ Adulto
Origem: EUA
Ano: 1977
Minha nota: 7,0


TRAILER - [AQUI]

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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Trouble Every Day [Desejo e Obsessão] 2001 Dir. Claire Denis



 Apesar do título em inglês o filme é uma produção ousada da diretora francesa Claire Denis. Seus filmes sempre caminham pelas sutis veredas dos instintos e libidos humanos, sobre a carne e seus impulsos mais irracionais, seja a criminalidade serial como no filme “J'ai pas sommeil (Noites Sem Dormir, 1994)” ou recalcamento homossexual como em "Beau travail (Bom Trabalho, 1999)". É típico do estilo de narrativa estética da diretora a obra ser extremamente tátil, deixando a câmera farejar, lamber, tocar os atores. Em “Trouble Every Day” não é diferente. O filme não prática excessos em falas e diálogos explicativos, as cenas acontecem quase desconexas entre si, entre personagens diferentes e cenários distintos, mas por fim, tudo se encaixa com um propósito em comum. De certa forma isso cativa atenção, somos obrigados a construir a natureza dos fatos enquanto a história se transforma diante de nossos olhos. 

Assim como os demais filmes do expoente francês aqui apresentado, principalmente a nova safra de diretores do cenário “cinema francês extremo”, o famoso cinema de bordas, ou como chamo, underground. O que vemos são leituras inverossímeis do gênero e contextos que poderiam cair no clichê. Porém esse é o diferencial do cinema francês, seja o tradicional ou o cinema de underground que tanto paparico. Em filmes como "Martyrs" [veja AQUI] e "Saint Ange (A Profecia dos Anjo)" de Pascal Laugier, "Haute tension" de Alexandre Aja, "Frontière(s)" de Xavier Gens ou "À l'intérieur" dos diretores Alexandre Bustillo/Julien Maury [veja AQUI]. Ou até mesmo nos dramas recheados de mistério como "Holy Motors" de Leos Carax, "La Moustache" de Emmanuel Carrère e "Maléfique" do diretor Eric Valette [veja AQUI]. Todos se diferenciam pela construção de suas histórias, nada explicativas, porém muito criativas, cabíveis a sagacidade de interpretação do telespectador, algumas vezes ocasionando a decepção para aqueles que apreciam enredos mastigados. No entanto sempre será uma surpresa para aqueles que degustam uma trama inverossímil, construída com sagacidade e inteligência. Claire Denis apresenta em sua obra justamente essa construção desordenada com finalidade de uma conclusão mais impactante, com diálogos minimalistas e planos altamente narrativos.


Retornando ao que realmente importa. Sobre o que se trata o filme? Eis a razão de utilizar a palavra “ousada” para essa produção. A atmosfera de Trouble Every Day é justamente um tema muito delicado, o canibalismo amoroso literal estimulado por uma libido intenso causado por uma patologia especialmente rara. Por isso digo “ousada”, provavelmente nas mãos de um diretor de menor calibre o filme iria escorrer pelo ralo do gore sem sentido e no trash ao estilo "The Texas Chain Saw Massacre (O Massacre da Serra Elétrica 1974 -2003)". 

No entanto Claire compôs com toda sutileza o que era cabível a uma excitação e conotação erótica aos estímulos exóticos, com certo deleite de “Voyeurismo hardcore” das cenas de ápice sexuais sempre movidas aos desejos extremo da carne. Sem deixar cair na vulgaridade da pornografia barata ou “porn-gore” descomedido. Equilibrando o sentido do extremo, esquadrinhando a progressão da história e o contexto, dos mistérios que permeia os personagens principais e suas enfermidades. O erótico voraz e a violência narrativa são excitantes e impactantes ao mesmo tempo, mas não deixam de sobrepujar o valor da história.


Em alguns momentos sentimos uma dose de Cronenberg, sobretudo se compararmos com uma obra-prima do porte de "Crash - Estranhos Prazeres (1996)". Para refrescar a memória  o filme narra à história do cineasta, James Ballard, que se envolve em um acidente de carro se tornado um “deficiente” físico. Após conhecer outras pessoas que passaram pela mesma situação, descobre que um pequeno grupo, motivado por um artista, fotógrafo, motivado pela excitação de registrar cenários de acidente automobilísticos, além de transforma cicatrizes em artes. Ballard se envolve com as pessoas deste grupo, todas motivadas por um transtorno sexual em comum, prática sexual em automóveis em alta-velocidade e cenários catastróficos.



Em “Trouble Every Day (Desejo e Obsessão)” não é diferente. O transtorno sexual é visto como uma doença, como um vício, mais ainda, a narrativa fragmentária de da diretora sugere que todo esse processo se deu por conta de um erro científico. É justamente sobre o apetite incontrolável que a fotografia se faz presente como uma narrativa indispensável. A primeira delas a viagem de lua-de-mel de Shane, interpretado por Vincent Gallo, um homem atormentado e com apetite sexual incontrolável. Ao mesmo tempo, ele está procurando por um médico, Léo (Alex Descais) que segundo colegas teria caído em desgraça no meio científico por querer estudar os fatores celebrais que flagelam a esposa. A estonteante e exótica Coré, na fantástica atuação de Béatrice Dale. Coré é atípica e completamente instintiva e animalesca em seu quadro crônico. Insaciável Coré sempre está à procura de novas relações todas levam os seus parceiros até a morte, canibalizando-os literalmente. 



Se por um lado Coré se deixar dominar por seus instintos mais selvagens, liberando feromônios, sendo totalmente atrativa e voraz as suas vítimas sexuais. Por outro lado Shane vive constantemente tolhido as relações sexuais com sua esposa, muitas vezes demonstrando uma melancolia oculta por um desejo intenso que vai além do mero contato humano. Entre as expressões de Share e Coré quase não há sensualidade, o desejo é tratado de forma primitiva, necessidade básica. A diretora faz de tudo para ora esconder essa intensidade e em alguns momentos demonstrando de maneira voraz, porém sempre deixando a luz o tema como  personagem principal, as sensações acima dos personagens. O filme prossegue com Shane em busca por uma cura, lutando com os seus instintos mais perversos. 



[Spoiler] Em certo momento o personagem não consegue sentir prazer com a esposa, masturbando vorazmente. Até que em determinado momento se entrega aos seus instintos animalescos. Com certeza essa é uma das cenas mais eróticas e, com a progressão dos fatos, mais chocantes! Em um ato de infidelidade com a copeira do hotel que se entrega completamente aos desejos do hospede, Shane vai de dominador para devorador. As mulheres terão seus pelos pubianos eriçados nesse momento. Literalmente é devorada a vagina da jovem que vaga entre excitação e horror até realmente ter consciência da mutilação e o fim. Porém tudo é feito com muito polimento, sem excessos ou exageros. [Spoiler]


Concluo o artigo deixando meus aplausos vão para Béatrice Dale. Quem acompanha o Imemorável provavelmente viu a postagem do filme “À l'intérieur (A Invasora, 2007)" dos diretores Alexandre Bustillo e Julien Maury. [veja AQUI]. No artigo (recomendo que leiam!), além detalhar a natureza do filme, faço uma breve biografia da natureza exótica da atriz. Sua atuação em “À l'intérieur” já havia me surpreendido completamente. Já na obra da diretora Claire Denis a atriz está praticamente irreconhecível, figurando totalmente a natureza exótica e animalesca da personagem Core. Mostrando novamente a habilidade em vestir personagens extremamente exóticos. Que alias, são apenas lufas de inspiração de sua vida pessoal. Recomendo que leiam o artigo, baixem o filme e tirem suas próprias conclusões.

FICHA TÉCNICA


Direção: Claire Danis
Título Original: Trouble Every Day
Título de Divulgação no Brasil: Desejo e Obsessão
Gênero: Drama, Suspense, Terror
Origem:França
Ano: 2001
Atores principais:Vincent Gallo, Tricia Vessey, Béatrice Dalle
Minha nota: 8,5
Trailer: Assista


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