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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ferris Bueller's Day Off (Curtindo a vida adoidado) 1986 Dir. John Hughes



Curtindo a vida adoidado
John Hughes

[Dublagem Original]



“Ferris Bueller's Day Off” ou “Curtindo a vida Adoidado” é um clássico que não precisa de apresentações. Essa obra máxima do diretor John Hughes é totalmente atemporal, plenamente viva e continua representando com muito vigor todo simbolismo que significar ser jovem. A razão é simples. O filme não representa apenas uma época, mas sim um estado de transição do individuo para fase adulta, as escolhas que irá fazer diante de uma sociedade que, cada vez mais, exige que você seja o melhor.


“Curtindo a vida Adoidado” não é simplesmente um clássico por ter feito parte da minha adolescência ou da sua, caso você tenha nascido na década de 80. O poder atemporal da obra não está somente em nossa saudosa memória, mas na leitura que John Hughes faz sobre a adolescência. Não é a toa que o diretor é detentor do título "o mestre dos filmes adolescentes”. Digo mais, Hughes é um dos poucos que soube captar as transformações desse período tão intenso e adverso. Seus filmes retratam as frustrações, alegrias, reflexões que tornam esse período da vida de qualquer individuo uma montanha russa com enormes emoções e incógnitas de igual tamanho. No entanto a genialidade está em estimular a reflexão entre o “florescer nebuloso de Apolo” contrapondo com as exigências econômicas e culturas que definem o ser no meio em que ele vive. Hughes captou com maestria a essência dos anos 80 e 90, principio da sociedade de consumo, época em que a juventude não tinha voz. Seus filmes são uma narrativa direta com a necessidade de uma identidade pessoal mediante a uma sociedade aonde os valores de SER estão relacionados com TER. 


Após 27 anos “Curtindo a vida Adoidado” continua com a mesma essência como se estivesse sido finalizado ontem. Ferris Bueller ainda faz as mesmas indagações sobre como se deve viver à vida. Ser adolescente não mudou muito coisa. A não ser a dificuldade de ter uma identidade pessoal. Afinal por mais que a tecnologia agilize nossa comunicação, cada vez mais estamos distantes do outro e de nós mesmos. Cada vez menos sabemos interagir com o próximo. Vivemos uma idéia sintética sobre o que significa se relacionar humanamente. A felicidade se tornou uma espécie de realização pessoal pré-moldada cada vez mais ligada com o status social e a condição financeira. Isso porque deixamos de ser meros consumidores e nos tornamos produtos. As relações humanas são regidas com os mesmos parâmetros das negociações mercantilistas. Sejam relações de afetividade intima ou de amizade, todas as posturas convergem para uma análise custo/beneficio em relação ao outro. Cada vez mais sabemos a importância das coisas, de uma carreira bem sucedida, de uma casa mobiliada, de um casamento cristão. Pouco sabemos sobre a simplicidade de viver, daquilo que nos traz paz de espírito.


Essa filosofia sobre a vida contemporânea me fez lembrar outro filme sensacional: “American Beauty (Beleza Americana, 1999)” do diretor Sam Mendes, quando a personagem Carolyn Burnham (interpretada por Annette Bening), corretora de imóveis, diz ao marido: “Como sabe, meu trabalho é vender uma imagem e tenho que viver esta imagem. Faça-me um favor. Pareça feliz.”  É exatamente o que vivemos. Uma constante busca para tentar parecer ser feliz. 

É muito bizarro perceber que “parecer ser feliz” é mais importante do que ser de fato feliz. Talvez seja mais cômodo, pois a felicidade requer transformações no caráter, na postura individualista que vivemos. Postura tão egocêntrica que sempre posiciona o outro como uma ameaça constante. Criamos estereótipos diversos construindo uma redoma, limitando o viver. Ferris Bueller, personagem irreverente criado por John Hughes, joga constantemente essa idéia bem em nossa cara. O personagem é uma prova que não precisa ser rico para ser popular, para ver a beleza da vida como ela realmente é, para ser feliz consigo mesmo. Basta deixarmos todas as ideologias de felicidade de lado e se permitir viver. Uma frase que gosto muito e reflete essa idéia é quando Bueller olha para câmera, falando diretamente conosco, dando aquela sensação de cumplicidade, e diz: “Não apoio o fascismo, ou qualquer outro “ismo”. Em minha opinião, os “ismos” não prestam. Não se deve acreditar neles, mas sim em nós mesmo.”


SAVE FERRIS!
A leitura de um clássico


A história se desenvolve na cidade norte-americana de Chicago no dia 5 de junho de 1985. Cidade que John Hughes passou boa parte de sua adolescência.  Nela vive Ferris Bueller, um jovem aluno do último ano do colegial que pretende matar um dia de aula, pois como o próprio diz “A vida passa muito depressa. Se não paramos para curti-la de vez em quando, ela passa e você nem vê!”. 

Na verdade essa frase não remete apenas ao dia ensolarado que o personagem deseja cabular, mas sim, uma afirmação diante das exigências que a vida nos traz. Bueller está diante do último ano de colegial, após isso, os amigos não irão se encontrar com tanta freqüência, exceto raras exceções nos finais de semanas. Muitos irão cursar faculdades, conhecer novas pessoas. Outros irão trabalhar ou mudar de cidade.



Surge um novo florescer. A responsabilidade em ser alguém, feliz e realizado com suas escolhas. Essa felicidade na sociedade de Ferris Bueller está ligada não somente a realização existencial do ser. Mas sim, e principalmente, a realização e afirmação de uma vida estável financeira. As exigências virão por duas vertentes, seus pais e a sociedade. E claro, não esta estabelecido nessa felicidade a realização pessoal, a satisfação consigo mesmo, a realização de fazer o que realmente gosta e o prazer da ociosidade criativa em desfrutar momentos de descoberta. Por isso a afirmação: “(...) Se não paramos para curti-la de vez em quando, ela passa e você nem vê!”. 

Mas Bueller não  irá matar um dia de aula qualquer, será um dia incomum. O dia que será aplicada uma prova sobre o socialismo europeu. O comentário que o personagem é muito engraçado e reflete exatamente os ideais da sociedade contemporânea. 

"Eu só queria saber qual é a razão desse teste. Eu não sou europeu e nem pretendo me tornar europeu. Por isso nem me interessa se eles são socialistas ou não. Eles poderiam ser fascistas, anarquistas, mesmo assim não iria mudar o fato de eu não ter um carro."

Sociedade imperativa do mundo das coisas. Onde toda realização pessoal e identidade social está diretamente ligada às coisas que possuímos. E assim ele conclui:

“Não que eu concorde com o fascismo. Não apoio o fascismo, ou qualquer outro “ismo”. Em minha opinião, os “ismos” não prestam. Não se deve acreditar neles, mas sim em nós mesmo. Eu concordo com Jhonn Lenonn: ‘Não acredito nos Beatles, acredito apenas em mim’. Essa frase é boa. Afinal de contas ele que era um máximo. Eu também gostaria de ser um máximo e não me preocupar com as pessoas"

Ferriz faz todas essas reflexões olhando para câmera. É uma espécie de cumplicidade com o telespectador. Essa decisão, olhar para o telespectador, foi uma idéia do próprio Hughes, pois as atitudes do personagem, tirando toda a narrativa por trás de suas intenções, soariam como arrogância, principalmente devido à forma como ele “se aproveita” de seus amigos. Essa conotação se tornaria mais atenuante se não houvesse um contato direto com o publico. O contato demonstra que Ferris está para além do filme. Ele está ao nosso lado conversando sobre a vida, sobre o que esperar dela e o que deve ser feito diante das frustrações. Como se não fossemos “vitimados” por esse estilo de vida. O dialogo direto remete a uma cumplicidade para com a fatalidade dos outros personagens. Colocando nós, telespectadores, além dessas fatalidades.


Isso é tão engraçado, quase um fato, após os créditos finais Ferris Bueller retorna, olha para a câmera (para nós) e diz: “Vocês ainda estão aí? Vão embora, desliguem a TV. O filme acabou!”. Ou seja, Bueller está além do personagem, ele é uma espécie de consciência em cumplicidade. Ele não diz o que devemos fazer da própria vida, pois fica a entender, sob falsa impressão que, “sabemos curtir a vida adoidado igual tal Ferris Bueller”, ou seja, pelo menos temos consciência da tolice que os outros cometem com a própria vida. Nós somos apenas cúmplice de uma aventura. Cúmplices da vida de seus amigos. Jeanie Bueller (Jennifer Grey) namorada de Bueller e seu melhor amigo Cameron Frye (Alan Ruck). 

Veja Cameron, sujeito inseguro, nascido em uma família conversadora com pais que se odeiam. Rimos da fatalidade de Cameron, pois nos identificamos com Ferris Bueller. Jamais paramos para pensar que o amigo inseguro ou a namorada do cara legal são reflexos de nossas escolhas e postura. 

Se percebermos “Curtindo a vida adoidado” não trata somente da necessidade de Ferris Bueller em matar aula, pois para ele a vida vai muito bem, obrigado! Tudo sempre dá certo. Um trecho do filme em evidencia isso é quando a namorada de Bueller pergunta: “Você já sabia o que fazer quando levantou da cama, não é?”. E de fato sabia! Vocês devem recordar da cena clássica, o desfile de rua. Nesta cena Bueller faz todos dançarem e cantar ao som e desempenho de “Twist and Shout” dos Beatles. Antes de fazer todos dançarem ele canta “Danke Schoen” do Wayne Newton. Pois bem, os mais atentos irão lembrar que “Danke Schoen” é música que ele ensaiava no inicio do filme enquanto tomava banho. Outro detalhe que demonstra que tudo já estava programado é o fato das moças do carro alegórico não estranharem a presença de Ferris Bueller, ao contrário da organização que, inquietamente, revisava a lista de apresentações. Bueller sempre soube o que fazer e brinca com a nossa percepção como se soubéssemos o que fazemos de nossas vidas. Pois dessa forma o personagem exemplifica nossos erros e frustrações através das aventuras e desventuras dos outros personagens do filme.


Portanto Bueller não está matando aula a seu bel-prazer. Ele tem consciência da atmosfera em que vive sua namorada e seu melhor amigo. E quer deixar para ambos, não apenas uma lição de vida, mas um dia para ser lembrado. A lição de vida, de fato, é para nós, telespectadores. No final quando ele pede para desligarmos a TV, pois o filme acabou, ele  está simplesmente dizendo “Vá viver sua vida, você sabe o que fazer agora”. 

E por que continuamos até o final? Porque acreditamos, inconscientemente, que existe um roteiro para uma vida feliz. Porém a felicidade é tão individual quanto nossos desejos sexuais. Ferris Bueller é a nossa consciência adormecida que se expressa cara a cara utilizando seus amigos como ilustração. Afinal é mais fácil tomar nota dos erros observando os obstáculos alheios aos seus. Quando sentimos pena de Cameron por viver em uma família desajustada, refletimos, inconscientemente, sobre as amarras familiares que vivemos em nosso lar. Mas como temos Ferris Bueller ao nosso lado, rimos de tais observações, não em igualdade com as dificuldades de Cameron. Compadecemos de sua aflição e desejando sua vitória. Mas nossa postura é de curtição, igual à Ferris Bueller, pois assim desejamos ser. Por fim Buller salva o seu amigo de uma vida extremamente passiva e nos deixa o conselho de como não se deve viver.


OS FILMES DE JOHN HUGHES

Os anos 80 e 90 não seriam o mesmo sem os filmes de John Hughes. Os quatro primeiros filmes que dirigiu e escreveu, Gatinhas & Gatões (Sixteen Candles), O Clube dos Cinco (The Breakfast Club), Mulher Nota 1000 (Weird Science) e Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off), somado a A Garota de Rosa Shocking (Pretty in Pink, que apenas escreveu, a direção foi de Howard Deutch), são verdadeiros reflexos de uma geração, e principalmente, um estudo fiel sobre as transformações da adolescência para a fase adulta. 

Por mais incrível que pareça “Curtindo a vida adoidado” não repercutiu como esperado. John Hughes ouviu sérias críticas ao filme. Em seu lançamento havia uma forte influência do governo conservador de Ronald Reagan. Todos viviam uma onda neoliberal. Com isso alguns críticos enxergarem neste filme uma propaganda de tais valores.



“Ferris Bueller’s Day Off” foi o ultimo grande trabalho Hughes. Após isso, o diretor se mudou de Hollywood, retornando para Chicago, vivendo sua vida em reclusão. Infelizmente ele morreu em 2009, aos 59 anos, ataque cardíaco. 

Em 2009 a HBO produziu um documentário sobre a vida e obra do diretor. O título do documentário é “Don’t You Forget About Me”, título da canção da banda Simples Minds, trilha sonora de seu primeiro grande sucesso “O Clube dos Cinco (The Breakfast Club)”, e claro, a música é praticamente um hino dos anos 80.


CURIOSIDADES
Coisas que talvez você não saiba


O ator Matthew Broderick se consagrou no papel de Ferris Bueller, porém Jhonny Depp havia feito o teste e não passou.  John Hughes optou Broderick, pois ele já havia feito um teste para o filme “The Breakfast Club (clube dos cincos)”, mesmo não se enquandrando em nenhum personagem, Hughes gostou do carisma do jovem ator.


O ator Allan Ruck, que interpretou o papel do amigo Cameron, foi escalado somente depois que Emilio Estevez recusou o papel. A atuação de Ruck, infelizmente não lhe rendeu outros papéis, ele acabou optando por trabalhar nas lojas da Sears (Uma espécie de Lojas Americanas aqui no Brasil).

Durante as filmagens Mia Sara disse ter se apaixonado por Broderick, mas que este "sabiamente" a recusara. Na época ele namorava com outra integrante do set, ninguém menos do que Jennifer Grey, atriz que interpretou a irmã de Ferris, tendo inclusive ficado noivos.


O canal NBC transformou o filme em um seriado em 1990. Ferris Bueller, a série. Quem interpretava o personagem Bueller para a série era o ator Charlie Schlatter. O Sitcom não obteve muito sucesso, parando no 13º episódio.  Os críticos diziam que Ferris era tão cínico nos episódio que chegava a dar desprezo.

John Hughes cogitou a continuação. Ferris Bueller mataria um dia na faculdade ou no trabalho, passando por aventuras similares do primeiro filme. A idéia não foi adiante, pois Hughes e o seu roteirista não encontraram argumentos que realmente valessem para produzir uma continuação. (Ainda bem!) Porém a idéia sugerida na época foi reutilizada para gravar um teaser de uma propaganda da empresa automobilística japonesa Honda. Ficou curioso? Veja o video [AQUI]


EDIÇÃO ESPECIAL
As narrativas em primeira pessoa de Ferris Bueller

Depois de toda essa contextualização filosófica sobre Ferris Bueller se manifestando como nossa consciência em diálogos em primeira pessoa, resolvi fazer uma edição apenas desses trechos. Confira e reflita sobre o assunto

ASSISTA [AQUI]


FICHA TÉCNICA


Gênero: Comédia, Drama
Origem: EUA
Ano: 1986
Atores principais: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Charlie Sheen
Minha nota: 10,0


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Download do filme com dublagem original 
Tamanho: 705.8MB

 

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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Man on the Moon (1999) Dir. Milos Forman



Um filme dirigido por Milos Forman

Posso estar sendo um pouco presunçoso ao afirmar, mas considero “Man on the Moon”, título nacional “O Mundo de Andy”, um dos maiores filmes de Milos Forman. É difícil fazer tal afirmação trazendo a mente clássicos indiscutíveis de sua carreira como “Um Estranho no Ninho (1975)”, “Ragtime (1981)”, “Amadeus (1984)”, “O Povo Contra Larry Flint (1996)” [veja aqui] e “Sombras de Goya (2006)”. Mas é interessante perceber como Forman é atraído por reproduzir a vida de pessoas com genialidade, loucura e criatividade incomum. Talvez, incorporar todas essas vidas lhe traga uma sensação de liberdade. Afinal o homem nasceu na Checoslováquia, viveu sob o nazismo e o comunismo. Conheceu todas as formas de autoritarismo e totalitarismo. Nunca foi um conformista, mas em entrevista revelou que se considera um covarde por nunca ter tido coragem de fazer coisas ultrajantes como Larry Flynt, o pornográfico que criou a revista masculina "Hustler" e Andy Kaufman a figura central do filme que apresento.

Mas garanto a vocês amigos (as) leitores(ras), Milos Forman tem uma característica única ao dirigir filmes baseados em fatos reais. Quando assisti “O Mundo de Andy” achei tão presunçosa a existência de um Andy Kaufman devido à fantástica apresentação do ator Jim Carrey diante da insanidade do personagem apresentado que logo me conduzi a pesquisar. E para minha surpresa Kaufman foi uma das figuras mais fantásticas, non-sense e indecifráveis do meio humorístico. Carrey fez uma atuação tão dramática, fantástica, digna ser comparada a dramaticidade de “O Show de Truman (1998)” e “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças (2004)”, filmes que realmente apresentaram as qualidades dramáticas de Carrey, além do humorista “paspalhão”. Realmente fiquei impressionado com a fidelidade dos traços comparados ao verdadeiro Andy Kaufman. Porém nada disso seria possível sem a genialidade na direção perceptiva de Milos Forman que soube coordenar, soube conduzir precisamente as pesquisas sobre a vida de Kaufman e transformou “O Mundo de Andy” é um filme divertido e ao mesmo tempo dramático, prazeroso de assistir, fugindo completamente da estética enfadonha dos filmes que tendem a ser biográficos. 



O que tornam os filmes de Milos Forman interessantes são as leituras contidas em cada obra. Em “Um Estranho no Ninho (1985)” Forman usa loucos para discutir o próprio conceito de sanidade do sistema. “Ragtime (1981)” é considera a maior crítica ao racismo contra o negro de toda a história de Hollywood. Em “O Povo Contra Larry Flint (1996)” Milos finge que vai falar de pornografia, atiçando o público, mas na verdade o que é discutido é a hipocrisia que existe por trás da idéia de liberdade de imprensa. Em “O Mundo de Andy”, a história de um palhaço que deseja ser reconhecido como ator, não é diferente. Quando os créditos subirem você perceberá que além de uma história inusitada há uma crítica ácida a fábrica de sonhos que a América (Hollywood) afirma ser. A verdade por trás dos shows Business ocultas na prostituição da arte e do artista.


ANDY KAUFMAN


Interpretado por Jim Carrey, Andy Kaufman era uma figura atípica, indecifrável e totalmente imprevisível. Kaufman não se considerava humorista, pois todas as suas intenções eram mais dramáticas e performáticas, mas raramente ele era levado a sério em suas intenções artísticas. Por natureza, devido a sua liberdade criativa, odiava regras e a idéia de “dar ao público aquilo que o público deseja” era algo muito submissivo. Acreditava que qualquer manifestação artística sobrepujava o humor barato das risadas enlatadas como os Sitcom’s ou piadas apelativas. Kaufman era um dos poucos humoristas que tinha consciência que a liberdade criativa morria quando as grandes produtoras detinham a posse de seus ideais, transformando qualquer performance em um produto a venda. Sua grande diversão não era simplesmente divertir o público, mais sim, provocá-los constantemente, deixá-los a deriva da imaginação, fazê-los refletir sobre tudo o que acontecia diante de seus olhos. Se tudo não passava de atuação e que parte de toda aquela loucura era realmente Andy Kaufman. Quando Andy tinha todos na mão, puxava o tapete. O inesperado era o seu maior prazer.



Andy Kaufman ficou conhecido através do seriado Táxi, interpretando o estrangeiro Latka Gravas. O humorista quebrou todas as estruturas da comédia convencional, apresentando números vanguardistas no teatro e em eventos públicos diversos. Latka era um de seus personagens, dentre muitos, que de tão fiéis se confundia com a personalidade real do ator, porém, ao mesmo tempo, não era nenhum, nem outro. 

Kaufman odiava Sitcom’s (abreviatura da expressão inglesa situation comedy, "comédia de situação", numa tradução livre). Sitcom’s são risadas enlatadas de gente morta, dizia. Só aceitou participar do seriado pois seu empresário George Shapiro, insistiu muito, sua aparição na TV seria um grande passo para os seus projetos mais ambiciosos. Kaufman só aceitaria o papel se algumas exigências pessoais (leia-se excêntricas) fossem aceitas. Uma delas era a presença do cantor Tony Clifton. O que muitos não sabiam que Tony era um personagem fictício de Andy Kaufman em parceria com seu amigo Bob Zmuda. A trama foi tão bem costurada que a BBC contratou Tony Clifton para o seriado. Tony Clifton é uma personificação encrenqueira e arrogante Kaufman, repleta de humor ácido que só poderia ser compreendido após muita repetição e observação.


Andy começou a realizar piadas herméticas para se relacionar com o público. Muitas vezes, irritava seus espectadores com pegadinhas, além de inventar falsas histórias para a imprensa americana. Na verdade suas intenções estavam sempre a dois passos à frente do que todos imaginavam. As brincadeiras do humorista era uma espécie de experiência para ciência do comportamento humano, dizia. Desafiar o público além do óbvio era sua obsessão particular. Seu humor ácido, satírico, non-sense e algumas vezes ofensivos era perceptível a uma pequena porcentagem do público que não entendiam quem ele era, mas via algum propósito em toda aquela insanidade destrutiva.  


O humorista ao longo dos anos ganhou alguns inimigos. Mas seus números irreverentes e criativos o tornaram célebre nos Estados Unidos. Fez sucesso no programa Saturday Night Live e ganhou a admiração de críticos e artistas diversos com suas performances. Sua notoriedade absoluta foi conquistada ao interpretar Elvis Presley e zombar de outras personalidades. O grande mistério de Andy Kaufman era a veracidade dos personagens criava, muitos escondiam a sua verdadeira identidade, como o cantor Tony Clifton. Após a sua morte em 1984 devido a uma espécie raro de câncer, muitos acreditaram que Kaufman ainda estava vivo, muitos foram ao velório acreditando ser mais uma peça do humorista, principalmente sabendo que Tony Clifton se apresentava em várias casas noturnas pelos EUA.


O FILME


Como disse anteriormente, o filme é fantástico. Apesar de ser biográfico não carrega essa carga cansativa que alguns filmes do gênero apresentam. Ao contrário, o filme é divertidíssimo! Jim Carrey nos faz rir a todo o momento, ele realmente encarnou com uma fidelidade incomensurável todos os trejeitos, tom de voz, movimento das mãos e dos olhos que corresponde à presença física de Andy Kaufman. Digo mais, este papel não seria tão digno nas mãos de outro ator. Jim Carrey, assim como Kaufman, são palhaços que gostariam de ser reconhecidos como atores dramáticos. Esse é o fio de semelhança que os uniu e que trouxe Kaufman a vida na performance de Carrey.



Nos minutos finais o filme nos leva a parte mais dramática, momento que Andy é diagnosticando com câncer. No entanto, todo filme o diretor Milos Forman faz questão de brincar conosco, brincar ao estilo Kaufman, pois há sempre aquela conotação de sarcasmo e surpresa. Não sabemos até que ponto devemos levar a sério o que estamos assistindo. Por essa razão não fui tão detalhista em relatar a biografia de Andy Kaufman, muitas coisas serão apresentadas de forma única no filme.


Mas se você já conhece Kaufman o filme será apenas uma constatação. Se não conhece, assista e após os créditos finais, vá no youtube e digite “Andy Kaufman becomes Elvis" e “Andy Kaufman on Letterman (June 24th 1980)”. Surpreenda-se! Mas faça isso somente após assistir ao filme!


O Mundo de Andy conta com um grande time de atores. O citado Jim Carrey interpretando Kaufman, Danny DeVito interpretando o seu empresário George Shapiro, a impagável presença de Paul Giamatti interpretando o amigo de armações de Kaufman, Bob Zmuda. E o próprio Bob Zmuda interpretando um dos produtores da BBC que sempre caiam nas armações da dupla. E Courtney Love, mais uma vez trabalhando com Milos Forman, interpretando a esposa do notório humorista, senhorita Lynne Marguiles.



FICHA TÉCNICA


Direção: Milos Forman
Título Original: Man on the Moon
Título de Divulgação no Brasil: O Mundo de Andy
Gênero: Comédia, Drama, Biografia
Origem: EUA
Ano: 1999
Atores principais: Jim Carrey, Danny DeVito, Vincent Schiavelli, Paul Giamatti, Courtney Love
Minha nota: 9,0/10,0 

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Torrent + Legenda em português (OMA.rar)



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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

MONTY PYTHON


O clássico humor britânico, non-sense e satírico

[Cultura e Entretenimento]

Em recordações memoráveis, quando as madrugadas televisivas não eram possuídas pelos pastores e sua orla de demônios. Podíamos passar as horas noturnas assistindo uma infinidade de “coisas” curiosas que geralmente não passavam a luz do sol. E apesar de nunca ter bebido o sangue de ninguém, eu sempre tive hábitos noturnos para a aflição de minha mãe. Como o sono sempre era uma possibilidade distante; lembrando que essa narrativa é retrato de uns 18 anos atrás, não havia ao meu alcance a ociosidade do computador e nem o vício do vídeo-game; restava-me então a TV. Eu passava as horas turvas da noite “zapiando” entre um canal e outro, procurando alguns filmes bizarros e cenas de patifaria (leia-se SEXO). Sim, pois mesmo no começo dos anos 90 ter uma mulher nua sem ter que pagar ou jogar uma cantada não era nada fácil. Nada comparado a hoje onde a molecada só falta engravidar o monitor.


RETRÔ NAS MADRUGADAS


Enfim, foi em uma dessas noites que conheci um filme que soou na época com o título muito estranho aos meus ouvidos: “Monty Python - Em Busca do Cálice Sagrado (título original: Monty Python and the Holy Grail)”. O título era muito bizarro, não tinha ligação com nenhuma coisa que eu pudesse imaginar. Pensei: “Quem ou o que é essa porra Monty Python?”. A curiosidade que matou o gato, fez com que eu abraçasse o bule de café e deixasse para o dia seguinte a idéia que logo de manhã eu teria uma prova terrível de Matemática com o Hitler da aritmética, professor João Campos. (Hoje uma pessoa muito estimada, mas os amigos de longa data entenderam a comicidade do que estou dizendo... “risadas”). A qualquer custo, inclusive uma nota baixa, que não era nada difícil, eu queria saber sobre o que se tratava Monty Python - Em Busca do Cálice Sagrado.

Monty Python - Em Busca do Cálice Sagrado
Ao assistir descobri que se tratava da sátira mais cômica, bizarra “non-sense” e incomum que eu já havia visto. O filme em si satiriza a história do rei Arthur e seus Cavaleiros da Távola Redonda. Repleto de personagens e diálogos extremamente absurdos, sem deixar de lado em alguns casos uma crítica satírica repleta de humor negro, Monty Python foi a coisa mais incrível e absurda que assisti na época (e ainda continua sendo). Ainda me lembro de algumas cenas clássicas do filme como enigma da ponte, o encontro com os cavaleiros que dizem Ní, a luta contra o cavaleiro negro e os diálogos sobre as andorinhas.

Monty Python - A Vida de Brian
Porém, foi com o surgimento do vídeo-cassete que a coisa melhorou. Meu irmão havia comprado um vídeo de duas cabeças, ou seja, reproduz e rebobina a fita VHS. Nós fizemos uma ficha na maior vídeo-locadora da cidade, a lendária Video Arte Club do Brasil. Foi uma festa, ganhei uma carteirinha e uma bolsa para carregar as fitas. Só não imaginava que iria encontrar outro filme com o título Python. Desta vez “Monty Python – A Vida de Brian”. Sensacional! O filme conta a história de um homem (O próprio Brian) que nasceu ao lado da manjedoura de Jesus Cristo, e por esse motivo passa a vida inteira sendo confundido com o próprio. Para os “mais sensíveis” o filme foi considerado ofensivo e blasfemo. No entanto “A Vida de Brian” satiriza todo o folclore, fanatismo e ignorância contida entre o duelo de crenças e culturas em “nome de um único deus verdadeiro”.


MONTY PYTHON: A ORIGEM


O Monty Python é formado pelos ingleses John Cleese, Terry Jones, Graham Chapman, Michael Palin, Eric Idle e o único americano Terry Gillian, cartunista que trabalhava na Revista Mad. Infelizmente o grupo terminou em 1989 com a morte prematura do ator Graham Chapman, aos 48 anos de idade. O comediante faleceu por causa de um câncer que lhe tomou a garganta e parte da coluna. Depois desta perda irreparável, cada um dos integrantes seguiu o seu percurso individual.

Esquerda para direita: John Cleese,Graham Chapman,Terry Jones,Eric Idle. Frente: Michael Palin
 Vale citar aqui, dois nomes importantes que seguiram vida após Monty Python. O primeiro deles é Terry Gillian que optou pela carreira de diretor. Lembrando o artigo que publiquei neste blog sobre o filme "O Mundo Imaginário do Dr Parnassus (2009)” (leia AQUI). Gilliam é pai de alguns clássicos do cinema como "Brazil - O Filme (1985)", "O Pescador de Ilusões (1991)", "Os 12 Macacos (1995)" e o trabalho mais pop de sua filmografia "Os Irmãos Grimm (2005)".  O segundo que continua ativa é o comediante John Cleese que atualmente é bem lembrando devido ao personagem o fantasma Nick-Quase-Sem-Cabeça do filme “Harry Potter e a pedra filosofal (2001)” e “Harry Potter e a câmara secreta (2002)".

 O grupo começou com pequenos roteiros para “sketchs” de teatro (pequenas cenas de humor) e logo a emissora BBC, vendo a genialidade da coisa, resolveu dar vida aquela a obra financiando o surgimento de um programa. Assim nasceu “Monty Python's Flying Circus” série humorística que contou com 4 temporadas entre 1969 a 1974. O nome Monty Python foi escolhido porque eles o consideraram engraçado. No documentário Live at Aspen, de 1998, o grupo revelou como o nome foi escolhido. Monty veio em tributo a Lord Montgomery, um lendário general britânico da II Guerra Mundial. Python surgiu, pois eles decidiram ter uma palavra que também soasse evasiva, e essa pareceu perfeita.

O sucesso do Monty Python teve um fator único em seu período: inovação. Os sketchs do grupo eram compostos por um novo estilo de texto e representação, absurdamente anárquico e pautado pelo completo surrealismo das cenas conhecido como Non-sense ("sem sentido", em inglês). A expressão é utilizada para classificar um estilo característico de humor perturbado e sem sentido, que pode aparecer em diversas artes. O grupo foi um dos propulsores dessa nova forma de expressão para o humor, mas também podemos encontrar essa expressão nas artes literárias. Como nos trabalhos do escritor Lewis Caroll  autor de "Alice no País das Maravilhas" e também do escritor Edward Lear.

O Monty Python contou com algumas participações especiais em sua longa vida. Celebridades como Steve Martin, Douglas Adams (autor da série O Guia do Mochileiro das Galáxias), Rowan Atkinson (ator que interpreta Mr. Bean) e os ex-beatles Ringo Starr e George Harrison. Sua influência na comédia chegou a ser comparada ao impacto causado na música pelos Beatles. E não é para menos, o grupo influenciou o surgimento de programas como South Park, Adult Swim e TV Pirata apresentada pela rede globo nos anos 80.


AS CENAS CLÁSSICAS DE MONTY PYTHON
Sketch e trechos clássicos de filmes


Esta semana assisti o engraçadíssimo “Monty Python – O Sentido da Vida”. Rindo da comicidade de algumas sátiras do filme, resolvi escrever esse artigo e postar algumas cenas (pois há várias no youtube) que considero clássicas. Vamos lá


A Vida de Brian
(Terry Jones, 1979)


Sem dúvida um clássico! Quer conhecer Monty Python? Siga essa ordem de filmes que estou postando trechos. Começando com  a “A vida de Brian” e a clássica cena do apedrejamento. Uma sátira as práticas e aos mandamentos “divinos”. Escolhi dublado, pois justamente assim conheci. Apesar de atualmente preferir filmes legendados, devemos considerar que o Brasil é o país que tem um alto nível nas qualidades nas dublagens. Cito como referencia “Os Simpsons”, atualmente “Todo Mundo Odeia o Cris” e o clássico “De Volta para o Futuro”. Além de ótimos dubladores, contamos com grandes atores.

Mas vamos a cena do Apedrejamento, notem que as vozes são conhecidas, encontramos as vozes do Kiko e Professor Girafales.





Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado
(Terry Gilliam e Terry Jones, 1975)

Essa é uma das cenas hilárias, além das citadas anteriormente. Este é o momento onde o Rei Arthur em busca de seus cavaleiros encontra o "terrível" Cavaleiro Negro.


Monty Python - O Sentido da Vida
(Terry Jones e Terry Gilliam, 1983)



Em “O Sentido da Vida” o filme narra sarcasticamente todas as etapas da vida, do nascimento até a morte. Há também algumas sátiras escatológicas, fazendo piadas sobre sexo e vômitos (Quem assistiu com certeza se lembra da famosa cena do gordo). Porém o ponto crucial é uma discussão sobre a natalidade diante das opiniões (leia-se imposições) religiosas. Surge um paralelo cômico entre Cristãos e Protestantes, onde os seguidores da doutrina cristã são mais rígidos e contra o uso da camisinha. É claro que isso em 1983, agora o Papa Bento “Hannibal” XVI  liberou uso, só não para aqueles que dão uma de Ronaldo "fenômeno", afim de "namorar" um Richarlyson atrás do muro. Nesta idéia de que todo o sêmen é sagrado, independente da taxa de natalidade, surge a bela canção “Every sperm is sacred”



A Piada Mais Engraçada do Mundo
(série: Monty Pythons Flying Circus, 1969)


E por ultimo, porém, não menos importante o sketch “A Piada Mais Engraçada do Mundo” do programa “Monty Pythons Flying Circus” que deu origem as idéias e filmografias do grupo Monty Python. Esse sketch satiriza a Segunda Guerra Mundial e Adolf Hitler.

 


Monty Pythons Flying Circus

No período em que escrevia este artigo encontrei as 4 temporadas da série exibida pela BBC - Monty Pythons Flying Circus. Assisti a primeira temporada. Algumas piadas são de época, outras com um nível de cultura e intelectualidade incomum e muitas cenas satíricas no caminho do sketch “A Piada Mais Engraçada do Mundo”. Para quem já conhece Monty Python recomendo para conhecer a origem da coisa. Para aqueles que não, recomendo que vejam a forma mais polida das idéias nos filmes citados anteriormente.

Bom divertimento! 




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 Todas as temporadas de Monty Pythons Flying Circus
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fido (2006) Dir. Andrew Currie


Um filme de zumbi politizado

Confesso que sou muito chato para filmes com temática sobre ZUMBIS, não por ter aversão a eles, mas justamente por ser um apreciador irreversível dessa manifestação incomum de idéias. Desde criança, quando assistia aos filmes de zumbis, sempre pensava no caos que uma invasão de mortos-vivos causaria a estabilidade social. Imaginava (e ainda imagino) como homem civilizado, ou como prefiro definir, condicionado a “civilidade social”, abandonaria todas as suas crenças e regras; agarrar-se-ia a lei do mais forte para assim, eximir-se extinção diante da morte.

Afinal, o homem que conhecemos atualmente, é apenas um “mascote” dos costumes adquiridos, fruto da ociosidade evolutiva do ser e escravo das condições impostas pelo sistema. Infelizmente a maioria de nós, humanos, está acostumada à praticidade, aos valores baseados na presunçosa e condicionada imagem social. Então, imagine uma invasão de mortos-vivos. Reflita como essa catástrofe social colocaria todos os valores ínfimos à beira da decadência. Afinal, diante da sobrevivência não haveria rico ou pobre, nem deus ou diabo; apenas nós, contra tudo aquilo que um dia fomos e breve nos “tornaremos”: mortos-vivos, devoradores de carne humana. 

 The Return of Living Dead (1985)
Portanto, apesar de toda idéia pré-determinada e preconceituosa sobre os filmes do gênero, eles trazem uma reflexão incomum, algo que vai muito além da podridão, dilaceração, maceração e carnificina. É claro, realmente existem muitos filmes ruins, eu já assisti praticamente todos para saber quais são os ditos infelizes. Quais são aqueles que não passam de uma mera contagem progressiva de corpos e mutilações diversas, distantes daqueles outros que realmente abordam assuntos específicos, com conflitos sociais e comportamentais, sempre equilibrados em uma dinâmica inteligente de personagens.

É claro, não é propriamente necessário ser um filme do Buñuel, um aclamado “O Anjo Exterminador (1962)”, para ser “Cult”. Como também não devemos creditar que a temática define a qualidade da obra. Mas tudo depende da qualidade do roteiro e o que de fato o diretor deseja expressar independente da atmosfera fantasiosa.

Afinal a morte é um enigma. As religiões dizem tudo sobre ela, mas jamais desmistificaram o seu segredo fúnebre, o que há além do umbral invisível, além de nossas supersticiosas e limitadas especulações. E se de fato, o que concerne aos segredos pós-morte fosse realmente o que especulam, todas as religiões concordariam em um ponto em comum. Mas as religiões não passam de um fruto da morte, uma pluralidade de ritos desconexos para aceitar o conceito natural da inexistência. Talvez, por não aceitar ou não compreender essa lei natural, nós humanos, criamos ritos e significados para essa dama vestes escuras. Portanto, trazer um cadáver a vida como fazem os filmes de horror, é questionar tal conceito, pensar no impacto da inexistência do ser em nossas vidas, mesmo que seja uma forma ímpar de reflexão.

E para os mais racionais que não se ofendem com algo tão natural, sabem interpretar e assimilar esse processo os filmes de zumbis não passam de um mero atrativo cultural. Afinal nem todos os filmes de zumbis (eu diria a maioria) são compostos de pura tragédia. Na verdade alguns são bem divertidos como é o caso do filme “Fido (2006)”, dirigido por Andrew Currie, que traz de maneira inteligente e engraçada tudo aquilo que podemos conceber sobre o processo mortuário. Indagando de forma criativa como nós, humanos, adaptamos as adversidades sociais a nossa realidade, tornando-as parte do cotidiano.


A EVOLUÇÃO DOS MORTOS-VIVOS
Novas idéias e maneiras inteligentes de narrar à extinção raça humana


Nunca gostei dos filmes de zumbis uniformes: um grupo de pessoas, matança em geral e final sem nexo. Isso só é bacana quando se tem 13 anos. No entanto, a falta de criatividade dos roteiristas no final da década 80 desvalorizou muito a temática, levando os filmes de zumbis a boca do lixo, decaindo além da marginalidade digna do underground que propiciaram clássicos como “Evil Dead (1981)” do Sam Raimi e Bruce Campbell.

Com a ascensão dos filmes do diretor George A. Romero em meados dos anos 70, muitos produtores caça níquel seguiram a sua idéia, porém, acabaram produzindo filmes sofríveis até para o mercado específico. Alguns deles nem valem a menção devido à pobreza de seu conteúdo. Infelizmente devido a essas “podreiras” sem nem um pingo de humor o gênero foi sendo marginalizado, caindo na decadência total, levando o próprio Romero abandonar o barco. O diretor chegou a fazer algumas tentativas em outras temáticas como o filme “Bruiser (2000)”, com o título em português “A Máscaras do Terror”. O filme tentou parecer “Um Dia de Fúria”, aquele com ator Michael Douglas, mas o resultado não foi lá àquelas coisas.

George A. Romero (2010)
 Para quem desconhece, George A. Romero é o diretor que estabeleceu discussões morais nos filmes com a temática “mortos-vivos”. Brincando com a aversão do público sobre a representação prática da morte, questionou muitas vezes o fato de como a humanidade irá encarar o ruir da própria espécie. Em seus filmes o diretor afasta a raça humana da soberania que a própria julga ter sobre as outras espécies, colocando-a sobre ameaça da extinção diante de algo tão banal como um vírus. Demonstra através de seus mortos que somos apenas mais um organismo, dentre bilhões que já existiram e foram extintos, viventes nesse precípuo organismo maior chamado planeta terra.

E se pensarmos um pouco, realmente nós somos apenas um ínfimo organismo em uma imensidão cósmica. A existência da raça humana não faz a mínima diferença para plena destruição planetária como julga nossa arrogância universal. Infelizmente, fantasiamos catástrofes, imaginamos que nós somos a ameaça suprema diante das causas que fará ruir o planeta azul para todo o sempre. No entanto, a destruição que provocamos em nosso meio apenas refletirá no fim de nossa própria espécie e na vida que nos permeia, nada mais. Afinal o nosso planeta, como um organismo vivo maior, encontrará defesas naturais e expurgará de seus órgãos os minúsculos vírus causadores dessas pequenas chagas. Ele já fez isso há bilhões de anos atrás, fará novamente. É empáfia pressupor que um organismo de bilhões de anos de existência, que já suportou chuvas meteóricas, ácidas, ebulições vulcânicas e teve em seu útero milhares de outros seres vivos desconhecidos por nós, já extintos; é idiotice supor que este mesmo organismo irá ruir pela existência da raça humana. Nós, humanos, que fazemos parte de 1 milésimo de segundo de sua história universal, não faremos a diferença. Os zumbis de Romero pressupõem essa simples lógica: a nossa arrogância e inconsciência.

Antes de Romero os filmes de zumbis retratavam os mortos-vivos apenas como mostros comedores de carne humana. Romero recompôs a idéia, utilizou os zumbis com ponto de uma narrativa sobre a sociedade de consumo. Em seus filmes os mortos-vivos são a representação simbólica da inconsciência humana diante do meio em que vive. Em um de seus clássicos, “Dawn of the Dead (1978)”, divulgado aqui no Brasil como “Despertar dos Mortos”, o diretor narra a história de um grupo de jovens que se refugiam em um shopping. Com o passar dos dias os sobreviventes percebem que os zumbis, extintivamente, retornam a certos lugares comuns em vida e lá ficam apenas vagando como sombras de uma história esquecida. Os sobreviventes começam a analisar o comportamento das criaturas e percebem que elas reproduzem instintivamente os hábitos de consumo que tinham em vida.

 Dawn of the Dead (1978)

Apesar de parecer precário, pois os zumbis de 1970 parecem mais anêmicos do que mortos-vivos, “Dawn of the Dead (1978)” se tornou um clássico justamente por abordar alguns pontos comportamentais de nossa sociedade. Foi um dos primeiros filmes que mostrou a morte de crianças, apesar de a cena parecer um tanto cômica. Foi um passo para novas perspectivas com a temática “zumbis”.

Já o ano 2000 foi o marco para o retorno dos zumbis com a origem de roteiros bem elaborados e grandes produções. Em 2002 entrou em cartaz “28 days later (Extermínio)”, produção de baixo orçamento oriunda direto do Reino Unido, dirigido por Danny Boyle e escrito por Alex Garland. Apesar da sonoridade “baixo orçamento” o filme é magnífico, tanto em efeitos visuais, argumentação, trama e composição dos personagens. O filme resgatou a idéia primogênita contida na antologia de George Romero. Com isso, bastou que os dólares começassem a entrar nos cofres da Fox com a produção britânica para que a Universal anunciasse o retorno de “Dawn of the Dead”.

 28 days later (2002)

A produtora chamou James Gunn para adaptar o roteiro de George A. Romero aos tempos atuais. Na direção convocou o estreante em longas-metragens Zack Snyder. Então em 2004 surgiu o remake de de “Dawn of the Dead (2004)”, apresentado aqui no Brasil com o título “Madrugada dos Mortos”. O filme trouxe várias discussões raciais e religiosas, inclusive trazendo a controvérsia que gerou muita discussão entre os cinéfilos “Os zumbis podem correr?”. Para quem não assistiu, recomendo o DVD com a versão estendida do diretor, além do filme vem com um interessantíssimo making off e entrevistas. O filme superou todas as minhas expectativas e na minha opinião, Zack Snyder, se consagrou um excelente diretor.

“28 days later (2002)” e o retorno de “Dawn of the Dead (2004)” abriram as portas para grandes e inovadoras produções. George Romero voltou ativa em 2005 lançando “Land of the Dead (Terra dos Mortos)” em parceria com as produtoras do Canadá e da França. O filme da continuidade a saga sobre a sobrevivência humana, só que desta vez com uma circunstância incomum, o diretor aborda a narrativa de um determinado grupo de zumbis que despertam a consciência sobre a sua condição, reivindicando seus direitos e buscando uma certa “liberdade”. O filme traz a idéia das grandes empresas que exploram o caos criando uma comunidade alternativa para quem possa pagar tal luxo, sendo que do outro lado sobrevivem os excluídos, humanos remanescentes do caos, viventes em guetos. A trama evolui com a luta dessas classes distintas pelo direito a sobrevivência, brincando com a idéia de um estado laico.

Dawn of the Dead (2004) 

Após essa abertura no cenário do cinema de horror, surgiram outros grandes filmes, como o fabuloso “REC (2007)” dos espanhóis Jaume Balagueró e Paco Plaza. Considero este filme um dos trabalhos mais incríveis da atualidade que souberam utilizar à temática “contagio por vírus” e “mortos-vivos”. O filme utiliza como narrativa o método similar ao dos documentários, empregando elementos muito inteligentes na argumentação dos fatos, compondo a trama perfeitamente, digna dos suspenses de Alfred Hitchcock. Mais incrível que isso, somente o filme produzido com 70 dólares do diretor britânico Marc Price, “Colin (2009)”. A produção se destaca por ter sido o primeiro filme a abordar uma invasão zumbi pela perspectiva de um zumbi e não pelos sobreviventes. O filme é poético e melancólico, pois com o transcorrer da história, os fatos vão se encaixando e o telespectador vai conhecendo a natureza humana oculta no morto-vivo – histórias, esperanças, pessoas e sentimentos que ele deixou para trás.

É claro que comentei apenas os filmes de crucial valor. Eu teria que escrever um livro sobre o assunto para comentar os outros que fizeram a diferença. Como podemos ver o século 21 trouxe novas perspectivas para essa temática tão singular. Mas mesmo assim, o humor e zumbis, nunca deram um resultado sério, apenas produções cômicas ou lastimáveis demais. Por isso apresento a vocês, amigos(as) leitores(ras), FIDO uma interessante perspectiva sobre a idéia de mesclar humor, zumbis e um roteiro incomum.


FIDO
O Mascote Zumbi



A história se inicia com uma pequena narrativa, quando uma nuvem de radiação espacial envolveu o planeta Terra trazendo os mortos de volta a vida. Ninguém está mais seguro, qualquer ser vivo, principalmente humanos, são devorados por essas criaturas. Teve-se início a uma grande guerra que foi vencida pelos humanos quando estes descobriram que os zumbis não conseguiam sobreviver se fossem decapitados, cremados ou tivessem seu cérebro esmagado. Foi então que a corporação governamental, a Zomcon, desenvolveu uma coleira movida a controle remoto capaz de desprover os mortos-vivos de seu instinto assassino. A partir daí, quase toda família de classe média passou a ter o seu escravo zumbi escravo para realizar as tarefas do lar.

O fato mais interessante dessa narrativa é o período histórico em que ela se apresenta. Pouquíssimos períodos da história do século XX serviram de cenário para tantos filmes como os anos 50. Isso devido à identidade visual e cultural que esta época representa para os americanos, principalmente, devido à prosperidade econômica pós-guerra que propiciou o aumento do consumo, a expansão dos subúrbios e a disseminação do modelo de família feliz idealizada, vistas em muitos filmes e seriados.  No entanto, essa imagem de desenvolvimento oculta sérios problemas como violência doméstica, pais negligentes, aumento da delinqüência juvenil, falso moralismo e a obsessão por commodities como televisores, casas e carros.


Em “Fido (2006)” os zumbis fazem parte dos tais “commodities” de consumo. Após o controle da invasão dos zumbis pela empresa Zomcon, aqueles que não foram exterminados, serviram as necessidades dos viventes. Com a coleira de controle de instinto muitos zumbis foram adaptados para executar tarefas secundárias como entregar jornais, limpar a rua, passear com o cachorro e ser uma espécie de “empregado faz-tudo” para a família que adquirisse um modelo. Tornando-se mais um “eletrodoméstico”.

É em meio a esse panorama caótico e surreal que se desenrola a bizarra (e engraçada) história de amizade entre o garoto Timmy Robinson (K’Sun Ray) e o zumbi Fido (Billy Conelly). Timmy é um garoto solitário que sofre bullying na escola e não recebe muita atenção de seu pai (Dylan Baker). Quando o chefe de segurança da Zomcon (Henry Czerny) se muda para uma casa na vizinhança, a mãe de Timmy (Carrie-Anne Moss) adquire um escravo zumbi contra a vontade de seu marido, para que os novos vizinhos não os achem esquisitos por serem os únicos do bairro a não ter um.

O que se segue é uma brilhante paródia de filmes no estilo “um garoto e o seu cachorro” trabalhando o tema de maneira sórdida e cômica. É tão engraçado e singular, que posso dizer que FIDO é o fruto de algum zumbi bastardo de George Romero com a cadela Lassie. O filme ainda encontra espaço para expor as mazelas da sociedade estadunidense dos anos 50 e da atualidade. Escravidão, racismo, imigração e porte de armas são algumas das muitas questões que podem ser levantadas ao longo da narrativa.


Um dos personagens mais interessantes, pois todos de certa forma têm um certo carisma, porém, o destaque peculiar vai para a zumbi (ou poderíamos dizer “zumboa”) Tammy, interpretado pela belíssima atriz Sonja Bennett. Ela é uma espécie de “esposa” do solteirão cômico, Sr. Theopolis, interpretado pelo ator Tim Blake Nelson. Não fica muito evidente a natureza dos fatos, se Tammy era esposa do Sr. Theopolis ou se o Sr. Theopolis adquiriu a distinta para abrandar a sua solidão corpórea. No entanto, o que torna a análise interessante, apesar de não ser algo explícito, é a analogia feita com a necrofilia ou inventividade humana para hábitos esquisitos.

 Tammy e Sr. Theopolis

Imagine comigo a possibilidade remota de uma catástrofe social dessa natureza. Com certeza, pois a natureza humana é bizarra, se houvesse tal possibilidade, veríamos nas lojas, ao invés de bonecas infláveis, “zumboas” (com todo humor que esse texto me permite) em estado degustável expostas a venda. A zumbi, Tammy, não representa apenas essa possibilidade bizarra, mas a realidade atual, o fato de que toda mulher não passa de um objeto de consumo. Nossa sociedade é machista e os meios de consumo vendem essa ideal, além das próprias mulheres, que esculpem o corpo para alcançar o ideal estético social. Algo que vai muito além da estética voltada para saúde física. Vide a imensa gama de “mulheres frutas”, forjadas como “artistas” que não passam de produto para consumo.

Mas voltando aos zumbis. Dirigido pelo canadense Andrew Currie, Fido – O Mascote é um filme divertido e inteligente que não se leva a sério demais e nem debanda completamente para o lado do besteirol como fez o lastimável “Todo Mundo Quase Morto (2004)”. Um verdadeiro lixo que tentou fazer humor utilizando à temática zumbis.

Humor tem que ser sarcástico e inteligente para ser digno, do contrário o resultado é mais uma franquia lixo como “Pânico” e filmes pastelões típicos. Quando se trata de comédia com algo de “terror”, humor negro, prefiro os filmes trashs e gore da década de 80 como “Braindead (Fome Animal/ 1992)”, “Basket Case (1982)”, “Re-animator (1985)” dentre muitos outros clássicos B insubstituíveis. O diretor Andrew Currie, provou que não importa a sincronia que se pretende seguir em um filme de zumbi, o importante é uma história criativa seguida de um roteiro inteligente de igual valor.

FICHA TÉCNICA:

Título Original: Fido
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento: (Canadá) 2006
Direção: Andrew Currie

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