terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

The Imaginarium of Doctor Parnassus (2009) Dir. Terry Gilliam





Eu poderia estar me preparando para ver as “bundas sacolejantes” na Tv, descansando meu gogó só para gritar no exato momento: “Olha a beija-flor aí geeeente!”. Mas não, em plena véspera de carnaval resolvi fazer uma maratona de filmes psicodélicos com finais esquisitos (são os mais legais) que provavelmente sua mãe também irá dizer: “Ele morreu? Ele não ia beijar a mocinha?”. 

Portanto, se você gosta de filmes com a lógica “A+B=C”, pule para próximo artigo caro leitor, pois estarei falando do cara mais psicodélico e surrealista do lado B da indústria cinematográfica. Senhoras e senhores, apresento-lhes o impagável Terry Vance Gilliam, o eterno Patsy do memorável clássico - Monty Python and the Holy Grail (1975).


TERRY GILLIAM
Luz, câmera e surrealismo


É um pecado mortal comparar um diretor ao outro, mas como Terry Gilliam não faz parte dos queridinhos da sétima arte, irei exemplificá-lo, justamente para que o amigo leitor possa ter uma compreensão mais apurada de sua importância. Podemos definí-lo hipoteticamente como o diretor que possui a morbidez cômica de Tim Burton e a percepção crítica (e um certo imã para o azar) como Roman Polanski. Como eu disse, diretores não se comparam. Tal exemplificação hipotética serve apenas para que você possa compreender que os filmes dirigidos por Terry Gilliam trazem consigo um conteúdo carregado de simbolismo e surrealismo, muitas vezes, fora do paladar aprazível da grande massa.

 
(Terry Gilliam)

Gilliam começou sua carreira como cartunista fotográfico, mas realmente ficou conhecido através da série Monty Python. Como diretor, retoca seus filmes com uma generosa dose de surrealismo e viagens lúdicas ao imaginário coletivo, tangendo uma fina linha nas veredas da obscuridade, beleza e humor sagaz.  Em sua filmografia estão clássicos como “As aventuras do Barão Munchausen (1988)”, “O Pescador de Ilusões (1991)”, “Os 12 macacos (1995)”, “Medo e Delírio (1998)”, “Tideland - O Mundo ao Contrário (2006)” e o mais popular de todos “Os Irmãos Grimm (2005)”. A partir deste último se inicia uma série de azar que já se tornou marca registrada das produções de Terry Gilliam. Azar que de certa forma moldou o rumo da produção de “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”.


UMA ONDA DE AZAR
Lastimável azar durante as gravações de Dr. Parnassus


“Os Irmãos Grimm” não estavam nos planos do diretor. No entanto, sem filmar desde 1998 ele já se via enroscado com as produções de “The man who killed Dom Quixote”, sua menina dos olhos.  O projeto fracassou por diversos fatores, deixando Gilliam literalmente endividado. Contra a sua vontade, resolveu dirigir o filme, porém com o decorrer do projeto o filme se tornou sua grande motivação criativa. O diretor conseguiu o feito de transformar as estórias fofinhas da Disney em fábulas góticas de horror, acentuando uma dosagem de humor ácido. O filme foi um sucesso. Matt Damon, Heath Ledger e a encantadora Monica Bellucci fazem parte desse time. Foi através da produção de “Os Irmãos Grimm” que o diretor teve um contato mais pessoal com o ator Heath Ledger, cotando-o para futuras produções. 

(Matt Damon e Heath Ledger - Os Irmãos Grimm)

E foi o que aconteceu! O ator acabou ficando com o papel principal do filme “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”, interpretando o personagem Tony. Porém o azar cavalga rápido e voraz. O diretor estava no meio das filmagens de Dr. Parnassus, 22 de Janeiro de 2008, prestes a finalizá-la. Estava maravilhado com a interpretação do ator Heath Ledger, sob as faces do personagem Coringa em “Batman - O Cavaleiro das Trevas”, filme lançado no mesmo ano. Mas para azar de todos, e principalmente de Terry Gilliam, o ator morreu no período de produção, deixando incompleto o mundo do Dr. Parnassus. 

Gilliam viu um flashback correr em sua mente, viu o fracasso semelhante à produção de “The man who killed Dom Quixote”. As portas já estavam sendo fechadas, todos estavam desistindo até que os amigos Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel se dispuseram a dar uma força. Incumbiram-se de terminar o filme, finalizando as cenas deixadas por Heath Ledger. E por incrível que parece, ficaram realmente ótimas. 

Afinal, o mundo de Dr. Parnassus é justamente quando o personagem atravessa o espelho mágico, vislumbrando o imaginário que sua mente cria sobre suas próprias percepções, desejos e anseios. Dentro do mundo de Dr. Parnassus você é aquilo que deseja ser. Os atores se encaixaram perfeitamente em cada cena, inclusive Johnny Depp, que é indiscutível sua atuação em filmes que trabalham com o imaginário.


PARNASSUS – O HOMEM QUE QUIS ENGANAR O DIABO
Um filme que desafia a imaginação e os sentidos

Infelizmente o filme será lembrado como “o último filme de Heath Ledger”, porém, deixe tal analogia de lado e perceba tudo o que a obra tem a oferecer na integra. Começando pela fantástica história do Dr. Parnassus (Christopher Plummer), um homem com mais de três mil anos de idade que lidera um grupo de teatro mambembe, tentando sobreviver em uma época onde as pessoas não acreditam mais em histórias. A trupe composta Valentina (a belíssima ruiva Lily Cole), filha de Parnassus; Percy (Verne Troyer) e Anton (Andrew Garfield) fazem parte dos atores deste teatro em decline. Com sua carruagem em forma de palco viajam carregando esperança e desolação, trafegando entre as ruas úmidas e escuras da atual Londres.

Todas as noites a peça é apresentada, encenando o mundo imaginativo de Parnassus que realmente existe através do espelho aparentemente cenográfico instalado no centro de seu palco. Sua moldura, no entanto, é passagem para a imaginação, não do protagonista, mas do próprio cidadão que ousa ultrapassar a fronteira entre a realidade e a mente, tão cheia de ilusões, truques e armadilhas. Porém, o grande desafio do Dr. Parnassus é ganhar uma aposta feita há muito séculos com Nick (o cantor Tom Waits), o Diabo. Que a todo momento joga com sua fraqueza e anseios humanos.


(Dr. Parnassus e o Diabo)

 A realidade em “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” é sempre suja, úmida, escura. A direção de arte do longa reserva ao grupo de Parnassus os ambientes e figurinos mais criativos, brilhantes, em muitos momentos coloridos, enquanto as ruas de Londres são dominadas pela escuridão de um mundo que não quer mais saber das histórias do protagonista. Mas, quando os personagens ultrapassam o espelho de Parnassus - como a Alice de Lewis Carrol - o filme ganha cores e formas inusitadas. Inocência não faz parte dos filmes Terrence Gilliam. Apesar das cenas trabalharem muito com o lúdico, há um ácido contraste, tangendo a realidade das ambições e conjecturas humanas.

Por que Dr. Parnassus? Estive pensando sobre tal nomenclatura “Parnassus”. Consultando algumas fontes (livros), percebi que “Parnassus” poderia ter vindo de “Parnaso”, ou propriamente Monte Parso, uma montanha de pedra situada no centro da Grécia sobre a antiga cidade de Delfos. No entanto, outra definição mais apropriada caberia ao contexto do filme. A adjetivação “Parnassus” é oriunda do termo "parnaso" que remete às idéias literárias do parnasianismo que tinham como conceito filosófico “a arte pela arte", ou seja, a arte que se faz por si só, livre de quaisquer obrigações do mundo a sua volta. Tendo em mente essa analogia fica bem clara a distância da arte de Parnassus com tudo aquilo que é expresso no mundo real - O mundo do entretenimento eletrônico, imagens estéticas e satisfação através do consumo. Pergunto-me, observando os diversos simbolismos expressos no filme: “O nosso mundo é real se comparado ao mundo do Dr. Parnassus?” Atualmente, o termo "parnaso" foi globalizado pelas gírias dos jovens quando estes se referem a algo sem sentido, por exemplo: "parnaso-punk".

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus é um filme para ser assistido diversas vezes, deixando de lado o peso dos nomes dos grandes atores que fazem parte desta obra. Deixo o filme para download como apreciação. Bom filme!

FICHA TÉCNICA

Diretor: Terry Gilliam
Gênero: Aventura, Fantasia, Mistério
País: Canadá, França
Lingua: Inglês, Russo
Atores principais: Heath Ledger, Jude Law, Johnny Depp
IMDB: http://www.imdb.pt/title/tt1054606/

TRAILER













DOWNLOAD

Torrent + Legenda em português (TIODP.rar)

 

 
 


2 comentários:

CDX, ainda omisso disse...

Ueba ! Vamos ver qual é dessa parada.

Rafaela disse...

Gostei da analogia do nome com o parnasianismo, tudo a ver...surrealismo total! E o Percy, o anãozinho, é o melhor!!! hauahauahauahau
=]