quinta-feira, 2 de agosto de 2012

CALVAIRE (2004) Dir. Fabrice Du Welz




"Perdido na mata próxima a um calmo vilarejo, qual a pior coisa que poderia lhe acontecer? Pergunte ao porco."


Já enfatizei em outros artigos a dificuldade que tenho para escrever sobre o cinema francês, principalmente quando se trata da nova safra do horror. A meu ver a nova geração de diretores é muito mais expressiva e, significativamente, mais artística do que a concepção que adquirimos com o horror americano. A beleza ou como eu brinco com os amigos – o gozo mental - é justamente devido à narrativa e expressão inverossímil que só existe no cinema francês, ímpares ao que concebemos diante da lógica do horror tradicional. 

Não encontramos nesse cenário o horror pelo espanto, banalizado e escachado, cheio de arquétipos carcomidos como a criatura, demônio ou o serial killer. Esses biótipos já não representam, não trazem a luz da reflexão os verdadeiros temores que inconscientemente (ou não) nos afligem como seres pensantes diante do que para nós é estranho, repugnante e incompreensível. O medo é justamente a forma mais brutal de nossas incógnitas mediante ao nosso preconceito a cerca de certos terrenos controversos a nossa cultura ou moral.

E quando falo em medo, não me refiro apenas ao medo natural, instintivo, oriundo da preservação da espécie. O que está em questão aqui são os medos que permeiam a natureza humana. A fina casca que separa o ser civilizado do ser bestializado ou ensandecido pelas intempéries que corroeram a alma humana durante o processo de sobrevivência social. Medo que alimentam os telejornais ou nos fazem desviar o olhar de um mendigo e suas palavras sem sentido, justamente por que sabemos que ele é o reflexo de nossa decadência. É justamente a fragilidade de nossa sanidade frente à voraz competição mundana que nos preenche de pavor. Pavor de nós mesmo, do desconhecido ao nosso lado, de nossa espécie. É deste medo que estou falando. Essa é à base do horror psicológico francês.


Calvarie é um destes filmes cheios de impressões e repleto de variações inverossímil, mas impactante em seu contexto final. Talvez tescer uma narrativa sobre a sua história seria um belo estraga-prazer, um spoiler de mau gosto. Com certeza irá estragar a surpresa que somente a subjetividade das impressões consegue oferecer. Pois de fato o grande barato de filmes como Martyrs, Maléfique e o próprio Calvarie é justamente as revelações que fazemos com as nossas concepções. Por isso não serei nada objetivo na narrativa da estória, darei uma leve ênfase às impressões e um retoque a produção. O resto do percurso é por sua conta e risco.

CALVARIE, O HORROR PSICOLÓGICO DE FABRICE DU WELZ


A obra de Fabrice Du Welz narra à história de Marc Stevens um cantor amador, uma espécie de Roberto Carlos, porém com mais vigor físico, que viaja entre asilos, hotéis e hospedarias fazendo suas apresentações de música romântica. E apesar do estado precário de seu furgão e pouco dinheiro, Stevens tem um certo magnetismo com as mulheres que muitas vezes o coloca em situações embaraçosas.


Stevens conclui mais uma de suas apresentações, recebe o dinheiro da contratante sedenta por uma gentileza mais lasciva. No entanto o músico tem outras preocupações como chegar o mais breve ao seu próximo destino. Pois o dinheiro e a distância dos familiares falam mais alto quando se está a muito tempo na lida. 

O velho furgão cai novamente na estrada, enfrentando uma jornada de vários obstáculos, intensa tempestade e denso nevoeiro. Até que inevitável acontece. O automóvel para de funcionar deixando o jovem preso em uma densa tempestade nos confins de um vilarejo sulista. Tentando sair dessa situação, Marc é surpreendido na densidade noturna por um sujeito a procura de seu cachorro desaparecido. O morador local lhe recomenda uma hospedaria rural que existe nas proximidades. Sem muitas alternativas o músico aceita, seguindo o sujeito até o local indicado.

Tudo bem. Até aqui você pode até imaginar que a história cairá no “clichêzismo” total. Dizendo até que brevemente o protagonista encontrará uma família de lunáticos ou cairá nas armadilhas de um serrial killer. Ledo engano. É neste ponto que todas as analogias que cultivamos do cinema americano decaem, sendo apenas tolos contos de fadas. 


Marc Stevens realmente vai até a hospedaria rural, conhecendo o afável anfitrião Sr. Bardel que logo se simpatiza com o jovem artista, principalmente por ser providente da mesma classe. A principio o músico se sente muito bem acolhido, mas estranha a ausência de mulheres no local, isso lhe causa uma incomoda reflexão. Aqui concluo o crucial para não estragar a conclusão dos fatos.

Calvarie à medida que avança em suas entranhas se revela um filme poético, tristeza e provido do sincero horror psicológico que nos cativa diante da desconstituição do ser humano através da insensatez e loucura. Seria um pecado mortal estragar a atmosfera romântica de tudo aquilo que assola a alma humana. Mas fica a diga para refletir. O título filme é uma referência religiosa ao caminho percorrido por Cristo, forçado a carregar a sua cruz até ao local da sua crucificação. 


O jovem cineasta Fabrice Du Welz debutante da nova safra do Novo Cinema Extremista Francês fez um ótimo trabalho com Calvarie. Mesmo ainda eu tendo como admiradores os diretores Pascal Laugier, Françóis Ozon e Gaspar Noé. Encontrei  na obra de Welz o horror psicológico pela consciência da desconstrução da moral do ser humano. 

Um destaque para a fotografia poética e melancólica que ficou ao encargo diretor  Benoît Debie responsável pela direção de fotografia da obra prima “Irréversible” de Gaspar Noé. Um ponto extra para as fantásticas atuações de Laurent Lucas e Jackie Berroyer conseguem bons desempenhos como Marc e Bartel. Fora a bizarra cena de música e dança no Pub.

Bom filme a você!

FICHA TÉCNICA

Gênero: Drama/ Horror
Título original: Calvaire
Ano: 2004
Direção: Fabrice Du Welz
Origem: França/ Belgica
Idioma: Francês
Nota: 75/100


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